quarta-feira, 8 de março de 2017

PAPA: TUDO E NADA!



PAPA FRANCISCO

MEDITAÇÕES MATUTINAS NA SANTA MISSA CELEBRADA NA CAPELA DA CASA SANTA MARTA

Tudo e nada

Terça-feira, 28 de fevereiro de 2017



Publicado no L'Osservatore Romano, ed. em português, n. 09 de 2 de março de 2017

«Contente, Senhor, contente!»: o rosto sorridente de um santo contemporâneo, o chileno Alberto Hurtado, o qual até nas dificuldades e sofrimentos garante ao Senhor que é «feliz», contrapôs-se àquele «entristecido» do «jovem rico» evangélico na meditação do Papa. São os dois modos de responder ao dom e à proposta de vida que Deus oferece ao homem e que o Pontífice sintetizou com a expressão: «Tudo e nada».

A homilia de Francisco inspirou-se numa consideração sobre a liturgia destes «três últimos dias antes da Quaresma» na qual é apresentada a «relação entre Deus e as riquezas». No Evangelho de domingo, recordou, «o Senhor foi claro: não se pode servir a Deus e às riquezas. Não se podem servir a dois patrões, a dois senhores: ou tu serves a Deus ou às riquezas». E na segunda-feira «foi proclamada a história daquele jovem rico, que queria seguir o Senhor mas no final era tão rico que escolheu as riquezas». Um trecho evangélico (Mc 10, 17-27) no qual se evidencia a advertência de Jesus: «Como é difícil que um rico entre no reino dos céus. É mais fácil que um camelo passe pelo fundo de uma agulha», e a reação dos discípulos «meio assustados: “Mas quem se pode salvar?”».

Hoje a liturgia continua a propor o trecho de Marcos, examinando a reação de Pedro (10, 28-31), que diz a Jesus: «Tudo bem e nós?». Parece quase, comentou o Papa, que Pedro com a sua pergunta — «Eis que deixamos tudo e te seguimos. O que nos cabe?» — apresente «a conta ao Senhor», como numa «conversa de negócios». Na realidade, explicou o Pontífice, provavelmente não era «aquela a intenção de Pedro», que evidentemente «não sabia o que dizer: “Sim, ele foi embora, mas nós?”». 

Em todo o caso, «a resposta de Jesus é clara: “Em verdade vos digo: Ninguém há que tenha deixado tudo sem receber tudo». Não há meias-medidas: «Eis, deixamos tudo», «Recebereis tudo». Ao contrário, há «aquela medida transbordante com a qual Deus concede os seus dons: “Recebereis tudo. Ninguém há que tenha deixado casa ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe, ou filhos, ou terras por causa de mim e por causa do Evangelho que não receba, já neste século, cem vezes mais casas, irmãos, irmãs, mães, filhos e terras, e no século vindouro a vida eterna”. Tudo».

Esta é a resposta, disse o Pontífice: «O Senhor não sabe conceder menos que tudo. Quando ele concede algo, doa-se a si mesmo, que é tudo».

Contudo, uma resposta da qual sobressai uma palavra que «nos faz refletir». De facto, Jesus afirma que «se recebe já neste século, cem vezes mais casas, irmãos, irmãs, mães, filhos e terras com perseguições». Portanto «tudo e nada». Explicou o Papa: «Tudo na cruz, tudo com perseguições, juntamente com as perseguições».

 Porque se trata de «entrar noutro modo de pensar, noutra maneira de agir». Com efeito, «Jesus doa-se totalmente a si mesmo, porque a plenitude de Deus é aniquilada na cruz». Eis então o «dom de Deus: a plenitude aniquilada». Eis então também o «estilo do cristão: procurar a plenitude, receber a plenitude aniquilada e seguir por aquele caminho». Certamente, um compromisso que «não é fácil».

Mas o Papa, seguindo a sua meditação, foi além e perguntou: «qual é o sinal que indica que progrido neste dar tudo e receber tudo?». O que faz compreender que estamos no caminho certo? A resposta, disse, encontra-se na primeira leitura do dia (Eclo 35, 1-15), onde se lê:

 «Dá glória a Deus de bom coração e nada suprimas das primícias das tuas mãos. Faz todas as tuas oferendas com um rosto alegre, consagra os dízimos com alegria. Dá ao Altíssimo conforme te foi dado por ele, dá de bom coração de acordo com o que as tuas mãos ganharam, pois o Senhor retribui a dádiva».

 Portanto, «de bom coração, rosto alegre, alegria...». Explicou o Pontífice: «O sinal que percorremos o caminho do tudo e nada, da plenitude aniquilada, é a alegria».

Não foi por acaso que «o jovem rico abatido no semblante, foi embora entristecido». Não fora «capaz de receber, de acolher a plenitude aniquilada». Ao contrário, explicou o Papa, «os santos, o próprio Pedro, receberam-na. E no meio das provações, das dificuldades mantiveram o rosto alegre, os olhos contentes e a alegria no coração. Este é o sinal».

Neste ponto o Papa recorreu a um exemplo tirado da vida da Igreja contemporânea: «Recordo-me — disse — de uma frase pequenina de Santo Alberto Hurtado, chileno. Trabalhava sempre, com dificuldade após dificuldade... Trabalhava pelos pobres». É um santo que «foi perseguido» e teve que enfrentar «muitos sofrimentos». Mas «quando era aniquilado na cruz» dizia: «Contente, Senhor, contente». «Feliz, Senhor, feliz»

Que Santo Alberto, concluiu o Pontífice, «nos ensine a percorrer este caminho, nos conceda a graça de caminhar nessa estrada um pouco difícil do tudo e nada, da plenitude aniquilada de Jesus Cristo e de dizer sempre, sobretudo nas dificuldades: “Contente, Senhor, contente”».

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