quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

CASTIDADE OU SANTIDADE?


 Estou lendo um livro de uma teóloga alemã, UTA RANKE-HEINEMANN, prefaciado por Leonardo Boff, que vai plenamente contra o celibato na Igreja, e contra uma série de atitudes que a Igreja toma em relação à castidade, sexo, contracepção etc. Nega várias atitudes morais baseadas na bíblia, alegando “falsa interpretação”. O nome do livro é sugestivo: “Eunucos pelo Reino de Deus”, editora Rosa dos Tempos. A autora, doutora em teologia e professora numa universidade alemã, perdeu o cargo após a sua publicação.
Por estranho que pareça, o livro me fez amar mais a minha vida celibatária e a castidade. Depois de matutar muito sobre o assunto, baseado não tanto nos livros, mas na minha experiência, percebi que o que interessa não é tanto ser ou não ser celibatário ou casado (a), manter ou não uma virgindade perpétua, mas sim, ser santo, livre de pecado, seja ele qual for.
Li em algum lugar que as cinco virgens imprudentes não entraram no “céu”, apesar de serem virgens!
Qual é a diferença entre viver buscando a santidade, estar lutando contra o pecado e viver no pecado, seja ele sexual, ou causado pela mentira, as brigas, a desonestidade, as fraudes, a vaidade, o orgulho, a violência, a falta de caridade, o egoísmo, o ódio, o isolamento?
Enumerei várias coisas:
1-        A busca da santidade nos deixa leves, fáceis de sermos conduzidos pelo Senhor.
2-        Deixa-nos uma paz incrível, inexplicável, que produz uma alegria intensa e interior;
3-        A oração, o colóquio com Deus, torna-se mais fácil;
4-               Impele-nos a amar as pessoas, sobretudo as necessitadas (sejam elas ricas ou pobres, pois um rico doente e/ou abandonado é uma pessoa necessitada de nossa presença). Amor sem distinções e sem interesse, devido à busca da santidade naquele relacionamento. A castidade não pode nos deixar isolados. Dizia um meu colega de seminário, o atual Pe. Everaldo: “Ao darmos um nó simbólico “naquilo”, pelo voto de castidade, não podemos dar também um nó no coração!” (1972).
5-               Buscar a santidade não é deixar de sentir atração sexual, nem deixar de sentir os movimentos no corpo, causados pelos hormônios, mas integrar esses movimentos e impulsos internos à vida diária. Lembrar-se, também, de que há outros impulsos que nos levam ao pecado, mas igualmente não são pecados em si, como os que levam ao alcoolismo, à violência, ao isolamento, ao egoísmo, ao auto fechamento, à busca do prazer pelo prazer, do dinheiro, do luxo etc.
Esses impulsos só se tornam pecados se forem consentidos e alimentados por nossa concupiscência.
Santa Catarina de Sena compara esses impulsos com cães amarrados que latem, mas não mordem (sinal de que sentia muito esse tipo de coisa). Se não lhe dermos confiança (dizia ela), se enfraquecem.
6-        Uma senhora de 80 anos, doente e de cama, perguntou-me, numa de minhas visitas: “Padre, quando é que essas coisas vão sair do pensamento da gente”? Eu lhe respondi: “Apenas três horas após a nossa morte!”. Ela morreu com 82, ou seja, teve mais dois anos de luta.
Quanto ao sexo, o Pe. Eugène Charbeauneau diz, num de seus livros “Solteiros e casados autoanalisados”, que nós teremos o desejo de cópula até a nossa morte.
O próprio Jesus teve alguma sensação do prazer sexual, pois sendo 100% homem, tinha as poluções noturnas normalmente, como todos os homens até a idade de uns 68 anos (alguns até mais). E foi castíssimo! Nunca pecou!
7-        A santidade é impossível sem a humildade e sem o autoconhecimento. Conhecer-se e humildemente aceitar-se como se é, para evitar as ocasiões de pecar e fugir do pecado. Cada um deve conhecer seus limites e suas tendências. Aqui entra o famoso “Orai e Vigiai”, tão insistido por Jesus e pelos Apóstolos.
8-        A luta em busca da santidade, seja vivendo o celibato ou a fidelidade conjugal, é uma luta contínua. Gandhi combinou com a esposa de viverem castos, e conseguiram. Mas ele dava até receita de alimentos que não causavam muito hormônio! Um amigo meu dizia que seria capaz de viver com sete esposas, mas se contentava com a dele e a respeitava. E eu acredito nele.
São Francisco de Salles era especialista em “receitar” atitudes que podem ajudar a vencer as tentações do dia-a-dia, como no livro “Filotéia” (você o encontra na internet, se o desejar). Ele orienta de modo especial tanto os celibatários como os não celibatários.
9-        A santidade é um dom de Deus, mas requer nossos cuidados e nossa luta. Devo fazer a minha parte, para que Deus faça a dele.
10-   Os solteiros e casados que desejam buscar a santidade, procurem conhecer os “Eremitas de Jesus Misericordioso”, que não é um grupo, nem congregação, sem coisa parecida, mas consiste num blog e um site (Nada te perturbe) que mostram algumas regras e orientações para os e as que desejam buscar a santidade em suas vidas do dia a dia.
Concluo exortando a todos e a todas a nunca desanimarem da luta, mesmo se caírem, seja em algum pecado sexual, seja não sexual. “Levante, sacuda a poeira e dê a volta por cima”. Nunca desanimar, nunca desistir.
Quanto ao celibato obrigatório para os padres, acho que está na hora de liberar a ordenação sacerdotal para os casados. É um absurdo “amordaçar” o Espírito Santo, sujeitando-o a só dar vocação aos que querem ser solteiros. Sei que o papa Francisco vai rever isso e logo teremos padres casados em abundância, como escrevi no meu artigo “Hecatombe”.
Quanto a mim, amo a vida que levo e me alegro muito de ter escolhido a vocação sacerdotal e agora a de eremita urbano, embora eu tenha sido muito oprimido e caluniado por pessoas maldosas que tentaram me fazer sucumbir. Eu já as perdoei, mas como leio em Efésios 20,3, “Deus é poderoso para realizar em nós, em tudo, muito além, infinitamente além do que pedimos ou peçamos”.
Nunca duvide do amor de Deus por você! Seja qual for sua situação de vida, ele “recolheu em seu odre “ todas as lágrimas que você derramou (Salmo 56,9). Todas! Nem uma só gota foi desperdiçada!

E o último conselho, baseado na minha experiência: não exagere em nada! Pare de procurar chifre na cabeça de cavalo! Nem tudo é pecado! Aprenda a distinguir o verdadeiro do falso nesse assunto. No campo da castidade, por exemplo, muitos lutam tanto para serem castos que deixam de lado a caridade, que é a virtude principal, pela qual vamos ser julgados (confira em Mateus 25,31-46). As virgens imprudentes, embora continuassem virgens, não entraram na festa nupcial (=no céu). 

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