sábado, 9 de maio de 2015

DESIGUALDADE, POBREZA E VIOLÊNCIA


“No mundo, 56 mil pessoas morrem de fome por dia. E 1 bilhão de pessoas são permanentemente subalimentadas. Uma criança que morre de fome hoje é assassinada. Fome não é mais morte natural. É massacre criminoso organizado”.
Jean Ziegler
Sociólogo suíço e professor da Universidade de Genebra e da Sorbone (1).

Um estudo publicado pela organização não governamental Oxfam International em janeiro deste ano. Intitulado Working for the few (“Trabalhando para poucos”), o documento chama a atenção para as crescentes desigualdades socioeconômicas, que nos últimos anos têm sido motivo de grande preocupação não apenas para cidadãos e movimentos sociais, mas também para políticos, economistas e empresários.
De acordo com o estudo, sete em cada dez pessoas vivem em países onde as desigualdades aumentaram nos últimos 30 anos. Mesmo nas nações onde elas diminuíram – como é o caso, inclusive, de latino – americanas, entre as quais o Brasil – a distância entre ricos e pobres continua enorme. Dados do Global Wealth Report (“Relatório da Riqueza Global”), produzido pelo banco Credit Suisse, indicam que 10% da população global detêm 84% de todas as riquezas do planeta, enquanto os 70% mais pobres (mais de 3 bilhões de pessoas) ficam com apenas 3%.
Outra informação instigante: nos Estados Unidos, o 1% mais rico da população ficou com 95% da riqueza gerada após a crise econômica internacional de 2008, considerada a maior desde a grande quebra da bolsa de Nova York, em 1929. Enquanto isso, os 90% mais pobres – cujos impostos foram empregados para financiar o trilionário pacote de recuperação oferecido aos bancos pelo governo norte-americano – foram ainda mais prejudicados.
Situações como essa reforçam uma percepção cada vez mais difusa de que a política produz leis que beneficiam apenas os ricos. Uma pesquisa de opinião realizada pela Oxfam em seis países (África do Sul, Brasil, Espanha, Estados Unidos, Índia e Reino Unido) aponta que a maioria das pessoas (80% dos espanhóis, por exemplo) acredita que os ricos têm grandes influencia  sobre os rumos do país. “isso representa um desafio para a tentativa de fortalecer a participação politica e construir sistemas políticos inclusivos. Como disse o famoso juiz da suprema  Corte dos Estados Unidos, Louis Brandeis, ou temos democracia ou temos a riqueza concentrada nas mãos de poucos, não podemos ter ambas”.
O professor de economia política da Universidade Lumsa de Roma e do Instituto Universitário Sophia, o italiano Luigino Bruni é especialista em Economia de Comunhão, Economia Civil, Economia Social,  felicidade na economia e bens relacionais afirma: “Não podemos ignorar o fato de que preocupa muito a Europa e o Oriente Médio, tem também razões econômicas. Estudos demonstram que a desigualdade aumenta a violência e os confrontos étnicos. Se queremos evitar micro e macro confrontos de civilizações, devemos mudar as regras do jogo. Somente colocando os países mais pobres (penso no continente africano em particular) em condições de desenvolver-se economicamente será possível uma paz duradoura”.
O Futuro das Crianças
“Evidências recentes demonstram que a desigualdade de renda  e a desigualdade de oportunidade estão altamente relacionadas: O futuro de uma criança é fortemente determinado pelo Status socioeconômico de seus pais”, prossegue a organização, com base em pesquisa do professor Miles Corak, da Universidade de Ottawa, no Canadá.
O acesso á educação, por exemplo, é um elemento fundamental  para garantir a mobilidade social. De acordo com a Oxfam, as desigualdades salariais decorrentes dos diferentes níveis de instrução são aceitáveis  desde que todas as crianças partam de uma situação de igualdade de acesso á educação de boa qualidade. Quando isso não ocorre, as desigualdades socioeconômicas são perpetuadas de geração em geração. (2).
América Latina e Caribe continuam sendo a mais desigual do mundo, onde 82 milhões de pessoas vivem com menos de USS 2,50 por dia; onde 21,8 milhões de crianças e adolescentes estão fora da escola ou em risco de abandoná-la e 82 mil adolescentes vivem com o vírus HIV (3).
“Construir pontes, lutar contra a pobreza e edificar a paz. São essas as três principais linhas de ação da diplomacia da Santa Sé no pontificado do Papa Francisco” afirmou o Cardeal Pietro Parolin, secretário de Estado de Estado do Vaticano (4).
Não deve só o Papa Francisco trabalhar em tais principais ações, mas todos devem intensificar com profunda consciência a luta contra a desigualdade, a pobreza e toda forma de exclusão. O respeito pela dignidade da pessoa humana é nossa missão concreta e de eficácia radical.
Nosso Senhor Jesus Cristo disse: “Pelo crescimento da iniquidade, o amor de muitos esfriará” (Mt 24,12). O ser humano tomado pela tamanha avareza, ambição e pela idolatria do poder e dos bens materiais, é totalmente frio, vazio, demeritório e desintegrado do bem comum.
Quando se esfria no amor, aquece o egoísmo; quando a caridade é congelada o calor da corrupção esquenta a ganância do dinheiro; quando o materialismo, o individualismo e a desigualdade imperam a pobreza, a miséria, a violência e o fanatismo tornam-se causa de riquezas para poucos, enquanto a fome, as desgraças e a morte para muitos.
De forma exortativa e tão abissal afirma Jesus Cristo: “Bem-aventurados os que têm fome e sede de Justiça” (Mt 5,6).
Dai a nossa luta pelo bem de todos, pela igualdade, liberdade, pela paz e pela justiça.
Pe. Inácio José do Vale
Professor de História da Igreja
Instituto de Teologia Bento XVI
Sociólogo em Ciência da Religião
E-mail: pe.inacio.jose@gmail.com

Notas:
(1)  O Globo-Prosa, 13/07/2013, p. 2.

(2)  Cidade Nova, março de 2015, pp. 23, 24 e 26.

(3)  O Globo, 05/10/2014, p. 19. 


(4)  O São Paulo, 18 a 24 de março de 2015, p.14.

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