sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

EVANGELHO DE LUCAS - INTRODUÇÃO

Não sou biblista, nem exegeta, nem teólogo. Estas reflexões são baseadas na minha caminhada em tentar entender a Palavra de Deus para aplicá-la à minha vida diária. O que não é próprio meu é da Bíblia de Jerusalém e de Fernando Armellini.

Lucas é um escritor de grande talento e de alma delicada, e narra seu evangelho de forma cativante, preocupando-se muito com a informação e a ordem (ver Lc 1,3), embora isto não signifique que seus dados sejam mais históricos que Mt e Mc. Dos que escreveram os Evangelhos, Lucas é o único não judeu, natural de Antioquia. Era médico. Após a conversão, acompanhou S. Paulo em suas viagens apostólicas, e muito do que escreveu foi inspirado pelas pregações do Apóstolo.

Baseou-se, também, no Evangelho aramaico de Mateus, que se perdeu, e em outras coleções anteriores que falavam sobre Jesus e seus ensinamentos.

Omite os episódios que não interessam a seus leitores pagãos (=não judeus), ou que sejam duplicatas.
Para Lucas, a Salvação se realiza em Jerusalém, cidade santa. Foi lá que o Evangelho começou e terminou, e de onde começou a evangelização do mundo (Ver Lucas 24,47 e Atos 1,8). É a subida de Jesus e de todos os cristãos para Deus.

Lucas evita ou atenua o que possa chocar a sua sensibilidade e/ou a dos leitores, também o que possa ser pouco compreensível, poupa as pessoas dos Apóstolos, omitindo ou desculpando-os de coisas que mostrem a fraqueza deles. Ele interpreta os temos mais obscuros e torna mais precisa a geografia.

É influenciado pela sua própria psicologia e modo de ver as coisas e por seu mestre Paulo. Salienta a misericórdia de Jesus para com os pecadores e gosta de contar cenas de perdão. Insiste com prazer sobre a ternura de Jesus para com os humildes e os pobres, enquanto que os orgulhosos e os ricos gozadores são severamente tratados. A condenação, justa, só é aplicada após pacientes prazos de misericórdia. É preciso apenas que a pessoa se arrependa, renuncie a si mesma, num desapego decidido e absoluto, mostrando uma "generosidade exigente", principalmente pelo abandono das riquezas, pela oração (muito necessária) e pelo seguimento do exemplo de Jesus.

O Espírito Santo ocupa um lugar de primeiro plano que somente Lucas salienta, como em S. Paulo e nos Atos. Tudo isso com a atmosfera de reconhecimento pelos benefícios divinos e de alegria espiritual dando à obra de Lucas este fervor que toca e aquece o coração.

Ele privilegia o lado humano de Jesus Cristo e a pobreza como modo de vida do cristão. Dizem os críticos que ele é o que mais caprichou na parte literária, devido ao seu grande conhecimento da língua grega (língua em que os evangelhos foram escritos), e que seu esmero em escrever e detalhar os fatos vem da própria prática de sua profissão. Seu evangelho surgiu entre os anos 75 e 80 de nossa era.
Morreu mártir, em idade avançada. Sua festa é celebrada no dia 18 de outubro, e por isso é o “dia do médico”, que era sua profissão.

LUCAS CAPÍTULO 01



Lucas 1,1-4: PRÓLOGO


Lucas escreve cerca de 50 anos depois dos fatos (80d.C) e não pertence ao grupo dos que conheceram pessoalmente Jesus. É fiel à tradição e aos outros acontecimentos reais, atestados por testemunhas oculares. Procura dar base sólida à fé dos cristãos das suas comunidades.

Teófilo significa “amigo de Deus” e talvez seja, aqui, um alto funcionário que desejassem que ficasse bem informado, mas pode ser que Lucas tenha feito de propósito, dedicando os seus escritos a todos os que são ou querem ser amigos de Deus, para confirmá-los na fé.

Lucas 1,5-25 :- JOÃO BATISTA – ANÚNCIO DE SEU NASCIMENTO.

Lucas reconstituiu a atmosfera do ambiente dos “pobres”, conforme Sofonias 2,3, no qual viviam suas personagens e de onde, sem dúvida, hauriu o essencial de sua informação.

São pobres (anawin) oprimidos (aniyyim) e os profetas reclamam justiça para os fracos e os pequenos e para os indigentes. São israelitas submissos à vontade divina. João significa “Javé é favorável”.

v.15- o “Nazir” (Nazireu), consagrado a Deus, se compromete, durante o tempo de seu voto, a não beber bebidas fermentadas, não se aproximar de cadáveres (veja Números 6). Com isso recebia a força de Deus, rejeitava a vida fácil, para pertencer de modo especial a Deus.

Um menino podia ser consagrado por sua mãe, mas não se sabe se isso era feito sem limite de tempo. Ex: Sansão (Juízes 13,5-7; 14,16-17); Samuel (1 Sam 1,11- falta a abstenção de vinho). João Batista (Lucas 1,15 – falta a cabeleira longa).

Quanto à referência ao profeta Elias, não tem nada a ver com reencarnação ou ressurreição de Elias, mas um simbolismo: João tem a mesma missão que o profeta.

V 18- Zacarias pede um sinal, mas permanece incrédulo: pediu sem convicção de que lhe seria dado. Por isso fica mudo.

V 24- A esterilidade era considerada desonra e até mesmo um castigo (Gn 30,23; 1 Sm 1,5-8; 2 Sm 6,23; Os 9,11).

Lucas 1,26-38: A ANUNCIAÇÃO

A anunciação do anjo a Maria indica o cumprimento da promessa feita em 2 Sm 7,14-16; 1 Cr 17,12-14. Em Jesus todas as promessas se realizam. Jesus está na linha davídica através de José (v. 27). Em cumprimento de Is 7.14, uma virgem, permanecendo virgem, dará à luz um filho.

(FA)- A obra da Salvação é exclusiva de Deus, embora não se dê sem a colaboração humana, aqui representada pela orientação de Maria.

(BJ)- A representação da concepção de Jesus se inspira em diversas passagens do AT (Juízes 13,2-7), o que implica que possa ter sido um pouco diferente do que disse Lucas.

(TA)- Veja por exemplo Mt 1,18, em que Maria percebeu que estava grávida sem ter tido encontro íntimo com José. A aceitação, o “Sim” de Maria ocorreu durante toda a sua vida, e não apenas naquele momento. O que Deus fizesse nela ou com ela estaria já implicitamente aceito por ela.

Quanto à palavra “Ave”, em certas traduções, significa “Alegra-te”: “Alegra-te, cheia de graça” (v. 28).
v 35- “O Espírito Santo te cobrirá com sua sombra”- Como na nuvem luminosa de Êxodo 13,22; 19,16; 24,16, ela evoca a presença de Deus. Na concepção de jesus tudo provém do Espírito Santo.

Lucas 1,39-45 – A VISITAÇÃO

(TA) – A meu ver, no versículo 42: “Donde me vem que a mãe do meu Senhor me venha visitar?” - temos a confirmação de que Maria é a mãe de Deus pois, como diz a BJ, “Kyrios”, “Senhor”, é o “Título divino de Jesus ressuscitado” (Atos 2,36; Fil 2,11) que Lucas atribui a Jesus desde a vida terrestre, com mais frequência que Mateus e Marcos (Lc 7,13; 10,1.39.41; 11,39). Kyrios também é a tradução, para o grego, de Javé e Adonai.

Neste trecho precisamos nos lembrar que nem tudo na bíblia ocorreu exatamente como é narrado: é um texto catequético, e não um tipo de diário do que aconteceu. Assim, é preciso entendermos o texto de forma mais ampla.

A paz, aqui, é a síntese de todos os bens prometidos por Deus.(veja Salmo 72,7; Isaías 9,5). Ao saudar Isabel, Maria quis lhe dizer que chegara ao mundo o tão esperado Messias e a paz prometida. Jesus manda-nos saudar com a paz aos que nos receberem (ver Lucas 101,5: “Paz a esta casa”).

Bendita és tu entre as mulheres”: Maria é um instrumento fraco e simples que Deus utiliza na obra da Salvação. Maria é omo a Arca da Aliança: Deus não mora mais numa arca, mas dentro de uma mulher (2 Sm 6,10-11).

Maria pôs sua confiança total em Deus, que cumpriria sua Palavra, com tantos sinais falsos de sua ausência. Maria não precisa demonstrações nem sinais para acolher a Palavra, e em seu caso, de acolhê-la dentro dela. Neste trecho, podemos também refletir sobre a disposição que ela tem para se colocar a serviço de Isabel, já idosa para ter filhos. Talvez tenha ficado com ela até à circuncisão de João Batista.

Lucas 1,45-56:- O MAGNÍFICAT

É inspirado no cântico de Ana, de 1 Sam 2,1-10 e em outras passagens do AT: pobres e pequenos socorridos e os ricos e poderosos deixados à própria sorte; Israel é objeto da graça de Deus desde a promessa feita a Abraão. É o canto de celebração alegre e o resumo de toda a História da Salvação, em que os pobres e humildes são exaltados e objeto do amor misericordioso de Deus. Quanto mais nos esvaziamos de nós mesmos e de tudo o que não for Deus, mais nos plenificamos com ele.


Lucas 1,57-66: NASCIMENTO E CIRCUNCISÃO DE JOÃO BATISTA

Texto sem dificuldades de interpretação. Sobre a mudez de Zacarias, o termo “Kôphos” significa surdo-mudo. É por isso que ele também não ouvia e precisou ser perguntado por meio de sinais (v. 62). João significa “José favorece”. Zacarias recuperou a palavra porque os fatos se realizaram segundo a Palavra de Deus (Lucas 1,20). A mão de Deus estava com aquela criança (MD). (1 Sam 24,6)

Lucas 1, 67-80: - CÂNTICO DE ZACARIAS
Peça poética colocada por Lucas nos lábios de Zacarias acrescentando os versículos 76-77.
Encerrando este primeiro capítulo de Lucas, vemos como com Jesus veio também a alegria do céu, pois Ele é a segunda pessoa da Santíssima Trindade. É Deus que se fez homem. Para os que o receberem, Ele os tornará filhos de Deus (Jo 1,11-12).

Seria bom agora você ler o 1º capítulo todo de S. João, pois o que Lucas disse em cenas teatrais, João o disse de modo teológico. A verdade pode ser dita de várias maneiras, mesmo com elementos estranhos ao fato ocorrido. É o que Lucas fez, ao ilustrar com tantas cenas “teatrais” aquilo que realmente aconteceu. Na anunciação, por exemplo, Mateus substitui todo o cenário de Lucas simplesmente dizendo: “Maria achou-se grávida por obra do Espírito Santo”. Só isso. Mas disse a mesma coisa que Lucas, que estendeu isso por vários versículos, narrando a anunciação de um anjo, como era comum em pessoas importantes, como João Batista, Sansão, Samuel. Em Mateus, o anjo aparece não a Maria, mas a José, e em sonho. E José acreditou no sonho! Quanta fé! Tanto por parte de José como por parte de Maria.

É preciso nos acostumarmos com a ideia de que Deus nos fala por meio do dia a dia, do mesmo modo que falava a esse pessoal da bíblia. Acontece que essas pessoas tinham uma fé mais pura do que talvez tenhamos, e agiam “Como se visse o invisível”(Hb).

LUCAS CAPÍTULO 02



Lucas 2,1-20 : - NASCIMENTO DE JESUS

Não se sabe ao certo em que ano Jesus teria nascido, mas sabe-se que foi talvez 6 ou 7 anos antes da data oficializada posteriormente. Ou seja, não estamos no ano 2013, mas no ano 2019 ou 2020, se contarmos a partir do nascimento de Jesus. Quanto ao dia, também não sabemos. O dia 25 de dezembro foi escolhido porque era feriado em Roma, festa anual do "deus" sol, que também era festejado no domingo. Em inglês, até hoje o domingo é o "dia do sol"= Sunday. Os cristãos, ao colocar nesse dia a festa do Natal, queriam substituir a festa pagã.

Isso implica que Jesus teria morrido não com 33, mas com uns 39 ou 40 anos de idade. Para maior detalhe, consiga uma Bíblia de Jerusalém e leia o comentário. Eu não me importo muito com esses números e cálculos.

Devemos ler a narrativa do nascimento de Jesus com cuidado, sem levar tudo ao pé da letra, pois Lucas apresenta de modo maravilhoso um acontecimento que pôde ter sido corriqueiro e simples, como o nascimento de qualquer outra pessoa. Aqui trabalhamos no caminho da fé, e não da ciência. Ele o descreve como os cristãos da primeira geração o viam.
Belém era um vilarejo de pastores, considerados sem juízo, falsos, desonestos, ladrões, violentos. Foi nesse ambiente que Jesus nasceu e cresceu. Os ricos estão longe do presépio e até querem eliminar Jesus de suas vidas, por ser-lhes perturbador e incisivo nos pedidos de conversão.

V 7- “primogênito”, aqui, quer apenas mostrar que Jesus tinha os direitos e a dignidade próprias do primeiro filho. Não indica que Maria teria depois outros filhos. Quanto ao local do nascimento, provavelmente foi numa sala da casa onde morava a família de José, em que ele se hospedara (leia 1ªSamuel 1,18; 9,22; Lc 22,11). A manjedoura de animais estava colocada certamente numa parede do pobre alojamento tão superlotado que não se pôde encontrar lugar melhor para se colocar a criança. Uma piedosa lenda colocou ali dois animais, aliás, mencionados por Habacuc 3,2 (do grego) e Isaías 1,3. S. Francisco completo o presépio, como o conhecemos hoje em dia.

v. 11 – Jesus, o Senhor (Kyrios, que é a tradução para o grego da palavra “Javé” ou “Jeová”) deixou, portanto, como Palavra, o Céu e tornou-se um homem, deitado num coxo (a que enfeitamos chamando de manjedoura), situado numa casa pobre de um vilarejo de Belém, um homem pobre, cujos pais receberam em seu presépio os pastores, tão marginalizados e odiados e, em Mateus, recebendo os magos, que eram pagão também marginalizados pelos judeus, provenientes de povos desconhecidos e segundo as leis judaicas, relegados à perdição. Eis a pobreza de Jesus! Eis a misericórdia de um Deus feito homem (veja nesta seção mesmo a postagem “O Primeiro Natal”.

Lucas 2,21- A CIRCUNCISÃO.

S. Paulo diz que o Batismo é a circuncisão do coração. A circuncisão é o que conhecemos atualmente por operação de fimose. Por meio dessa cerimônia, feito de modo solene no templo judaico, o menino recebia o nome e era inserido no povo de deus. É como no Batismo, em que somos inseridos no novo Povo de Deus, além de termos nossos pecados perdoados, inclusive a falta original. Por isso é que batizamos crianças: para inseri-las no povo de Deus, da mesma forma que ocorria na circuncisão, que deixou de ser praticada por ser uma iniciação “tribal”, ou seja, algo particular de um povo: inseria a pessoa num povo determinado, no caso, o povo judeu.

Quanto ao pecado original, é muito difícil entendê-lo. Sabemos que nascemos com um tipo de “defeito de fabricação”, que é a falta original. O Batismo nos recupera, mas as consequências desse “defeito de fabricação” ficam, como as doenças, o sofrimento, a morte.
Quem estiver a fim de ler mais sobre o pecado original, acesse este link: PECADO ORIGINAL

Lucas 2,22-40 – APRESENTAÇÃO DE JESUS NO TEMPLO

A purificação era imposta só à mãe. A criança deveria ser “resgatada” com animais permitidos, que substituíam a criança. Pobres que eram, José e Maria resgataram Jesus com dois pombinhos. Jesus nos resgatou dando sua própria vida. Não foi substituído por animais. Por isso ele é chamado por João Batista “o Cordeiro de Deus”.

Os pais de Jesus cumpriram todas as prescrições da lei (veja Gál 4,4). Estavam plenamente inseridos na ordem social. Jesus é o Messias do Senhor, o ungido por excelência, destinado a uma obra de salvação (v.26) que cumprirá realizando em si a figura do servo sofredor.

v. 32 – Jesus coloca-nos na necessidade de decisão e isso pode dividir. Sob a luz de Jesus, tudo se torna claro e distinto, tanto o bem como o mal. Os pagãos receberão a luz (=Jesus) e caminharão no caminho verdadeiro em direção à salvação.

v.34- Sinal de contradição= os incomodados pela pregação de Jesus, que não querem se converter, praticarão as hostilidades e procurarão calar a ele e aos que o seguirem, par talvez se manterem tranquilos em sua maldade e indiferença.
v.35 – Maria está unida a Jesus não só na alegria, mas em suas dores, paixão e destino.

v. 39-4- - Jesus se encarnou de verdade, plenamente, e precisou crescer como todos, não só na estatura, mas também no conhecimento, na sabedoria e na graça de Deus, que respeitou as várias etapas de suas capacidades, variadas de acordo com as idades que ele teve; ou seja: sendo Jesus 100% homem, o pai precisou respeitas as fases de crescimento de seu Filho para, aos poucos, ir formando sua estrutura humana-divina. Havia coisas que só na fase adulta Jesus teria a capacidade humana de suportar. Lembremos sempre que ele é 100% Deus e 100% homem!

E nós? Precisamos também respeitar nossos limites, nossas capacidades, nosso caminho, para não desanimarmos. Se até Jesus precisou respeitar seus limites, quanto mais nós!

A melhor atitude para nos adequarmos a isso é a humildade, que nos leva a nos aceitar como somos, a aceitar nossas limitações e agirmos tendo em vista nossa verdadeira estrutura física, psíquica, mental, espiritual. Não podemos mentir para os outros e muito menos para nós mesmos, o que é mais perigoso. Somos o que somos diante de Deus!” (Não me lembro quem falou isso...). Desse modo, vamos fazendo o que pudermos e aos poucos nos preparando para agirmos de modo melhor, um passo por vez, sem radicalismos nem “loucuras”.

Lucas 2,41-52 – JESUS ENTRE OS DOUTORES

O correto era ir a Jerusalém três vezes por ano. José e Maria iam uma vez por ano, para celebrar a páscoa porque, talvez sendo pobres, não podiam ir mais vezes. Moravam a três dias de Jerusalém. Decerto Lucas menciona essa vez para mostrar algo especial, que acho ser o Bar Mitzvá de Jesus, além de narrar seu desencontro com os pais e seu desejo de estar no templo.

O Bar-Mitzvá, que significa “ filho do preceito”, era feito aos 12-13 anos de idade, quando o adolescente atingia a idade adulta e se comprometia a observar todos os preceitos da lei. Penso ter sido feito o Bar-Mitzvá de Jesus nessa ocasião, porque uma criança não seria recebida pelos doutores da lei, como Jesus o foi, “ouvindo-os e interrogando-os!”. Sem o B.M., ele não poderia estar fazendo isso. A criança era totalmente desprezada, como se nem existisse. Ele impressionou a todos com a sabedoria de suas perguntas e respostas e era, portanto, a primeira vez que estava podendo conversar com essas autoridades judaicas.

Outra coisa sobre os três dias em que ficou perdido é notarmos que Jesus não era muito “caseiro” e decerto ia muito às casas de seus amigos. Seus pais estavam talvez acostumados com esses pequenos “sumiços”, mas não por um dia inteiro, como dessa vez.

v. 51 – Maria não sabia tudo o que ia acontecer a Jesus. Ela ouvia Deus da mesma forma que nós, ou seja, na intimidade de seu coração. Ela não recebia visita de anjos, como poderíamos supor. Por isso diz as escrituras: “Guardava todas essas coisas em seu coração”, procurando aos poucos entender qual era o alcance daquela missão, tanto a dela como a do filho.

Quanto a Jesus, aprendeu a obedecer aos pais até o tempo oportuno (v. 51-52). Sabe, entretanto, que suas relações com o Pai ultrapassam as da família humana (v 48; veja João 2,4). Essa é a primeira manifestação de sua consciência de ser o “Filho” (Mateus 4,3).


LUCAS CAPÍTULO 03



Lucas 3, 1-18 : PREGAÇÃO DE JOÃO BATISTA

Segundo dados históricos, Jesus teria mais de 30 anos quando iniciou sua vida pública. Deus deixara o povo por 300 anos sem profetas, talvez porque viu que ninguém os ouvia! Com a vocação de João Batista, Deus mostra que nunca se esquece dos homens, mas espera o momento exato para recomeçar o seu diálogo. O deserto representa a renúncia a tudo o que é supérfluo e inútil, embora muitos o considerassem morada dos demônios. Seu modo de se vestir está em Mt 3,4, e contraria tudo o que se usava na época.

João Batista pede que todos se convertam e mudem o modo com que vivem suas profissões e seus atos, para poderem receber o Messias. Remover todos os pecados, obstáculos, tudo oque impede o encontro com Jesus, “aterrando os vales e tornando retos os caminhos” (v.4). Quais são os “vales” e os “caminhos tortuosos” de nossa vida, de onde trabalhamos e vivemos?

vv. 7-18: A conversão é mostrada como um modo concreto de vida; não com palavras, nem com piedosos exercícios religiosos, mas na partilha, na honestidade em tudo o que fazemos, não abusarmos do poder, estarmos a serviço. Na segunda parte mostra um Jesus-Juiz, que purifica com o Espírito Santo e com o fogo, ou condena a um fogo não purificador. Jesus queima o pecado, não o pecador.

Lucas 3,19-22: O BATISMO DE JESUS

Juntar aqui os vers. 15-16: “Eu batizo com água, mas vem aquele...” etc. O fogo purifica e marca para sempre. João é preso por ter denunciado o adultério de Herodes.

Na verdade, no Batismo de Jesus não é a água que o santifica, mas é Ele que santifica a água para o nosso Batismo, ao entrar nela para ser batizado.

v.21 - Jesus estava em oração, e o dom do Espírito Santo vem em resposta a essa oração. É como 11,2: “Venha a nós o vosso Espírito santo e nos purifique”. Também 11,3: O Pai nos dará o Espírito Santo se o pedirmos.

v. 38 – A genealogia de Jesus remonta a Adão e a Deus. A figura de Jesus se torna, então, tipo par todos os cristãos. No Batismo, a oração da Igreja faz descer sobre nós o Espírito que, tornando-nos filhos de Deus, ligou nossa pobre genealogia humana a Deus.

Quanto à abertura do céu, a pomba, a voz, são sinais da manifestação de Deus (=teofania) que mostram ser Jesus o Filho de Deus e o próprio Deus. Eu, particularmente, prefiro os símbolos da língua de fogo e do vento para simbolizar o Espírito Santo, que é Deus com o Pai e o Filho, na Santíssima Trindade. Como é bonito o trecho de 1 Reis 19, em que Elias sente a presença de Deus no sopro de uma brisa suave, e não no terremoto, nem no vendaval, nem da tempestade. Nunca nos esqueçamos disto: o Espírito Santo é uma PESSOA DIVINA, e não uma força, uma luz ou coisa parecida. Ele é chamado o Paráclito, o advogado nosso, o nosso intercessor, que intercede junto ao Pai “Com gemidos inefáveis” (S.Paulo).

Lucas 3,23-38 – A GENEALOGIA DE JESUS

Em Lucas é mais universal e remonta a Adão, cabeça de toda a humanidade. É quase certo que Maria pertencia também a essa linhagem. Lucas Mostra Jesus “inaugurando” uma nova raça humana. Como discípulo de Paulo, talvez Lucas pense no “novo Adão” de Rom 5,12.

Quanto à idade de Jesus mencionada neste trecho, Lucas apenas deseja indicar que ele tinha a idade mínima requerida para iniciar a sua missão. Os estudiosos do assunto chegaram à conclusão que Jesus tinha cerca de 34 anos, talvez até 37. Isso significa que ele morreu com 37 ou mesmo 40 anos. (Comentário da Bíblia de Jerusalém).

LUCAS CAPÍTULO 04


Lucas 4,1-13: A TENTAÇÃO NO DESERTO


As três tentações de Jesus são como três parábolas que devemos aplicar em nossas tentações. Na verdade, Jesus teve todas as tentações durante toda a sua vida. Lucas menciona as tentações que Jesus teve na sua Paixão (v.13).

Ao aplicar as tentações, digo, a luta contra as tentações de Jesus em nossa vida, precisamos tomar cuidado para não querer ou tentar aplicar as MESMAS tentações que Jesus teve. Seria um engano. As tentações de Jesus foram próprias de sua condição Deus-Homem verdadeiro. Não teriam sentido em nossa vida, a não ser se as vermos como parábolas, como dissemos acima.

As três se resumem nos modos errados de nos relacionarmos com três realidades: com as coisas, com as pessoas, com Deus (FA).

Jesus foi tentado a usar em proveito próprio a sua divindade, inclusive na cruz: “Desce da cruz, se és o Filho de Deus!”. Ele poderia ter usado sua divindade para resolver muitas coisas, mas para ele isso era uma tentação: ele veio para vive uma vida humana. Usar sua divindade para proveito próprio ou para sanar dificuldades seria negar o ser humano e mostrar que as soluções seriam impossíveis para os problemas propostos, já que ele mesmo não os teria resolvido.

O demônio usou da mentira para tentar a Jesus, como também a usa para nos tentar: “Tudo isto me pertence”. Na verdade, o mundo tem sido muito fiel ao demônio, mas ele mentiu a Jesus, Precisamos tomar muito cuidado com suas insinuações. Acabamos acreditando que aquele (=o caminho errado) é o único ou o melhor a seguir. Achamos que não vamos ser punidos se o seguirmos.

Prostrar-se diante do demônio, no dia a dia, é amar o pecado, adorar os ídolos atuais (sexo, poder, dinheiro, fama...) como a um deus e abandonar a confiança e a fé em Deus; é humilhar o outro, fazendo com que ele nos “adore” com o a deuses e coisas desse tipo.

Muitas vezes as pessoas se submetem ao mal ou não o abandonam para poder continuar gozando privilégios, honras e ganhar mais dinheiro.

Na terceira tentação, Jesus é convidado a se atirar do alto do templo, ou seja, a tentar a Deus. O demônio usou um trecho bíblico para seduzir Jesus. Ele quer destruir as bases de nosso relacionamento com Deus. Tentar a Deus é achar que ele tem que nos ajudar, que é obrigado a nos dar tal e qual graça, porque, por exemplo, fazemos algumas coisas boas ou porque somos cristãos.

Jesus nunca prometeu que nos livraria dos sofrimentos, mas que estaria sempre conosco. Convidou-nos a levar após ele a Cruz. E essa cruz é diferente para cada um de nós. Lucas resumiu todas as tentações de Jesus nessas três: Ele foi tentado a usar seu poder em proveito próprio (transformar as pedras em pão), a buscar meios obscuros para nos salvar talvez mais fácil para ele seguir (prostrar-se diante do demônio), e se aproveitar de sua situação de Filho de Deus para sair das dificuldades (atirar-se do templo). Nós temos tentações diferentes e essas mesmas, em menou escala. Aprendamos a ler este trecho como parábolas, a fim de sabermos o que fazer quando formos tentados.

Seria um erro de nossa parte compararmos nossas tentações com as de Jesus. As dele foram próprias de sua pessoa como verdadeiro homem, sem ter deixado de ser verdadeiro Deus. Não somos tentados da mesma forma que Jesus. Nesse assunto, vale o que diz a bíblia: Ninguém será tentado além de suas próprias forças.


Lucas 4,14-30: INÍCIO DA PREGAÇÃO DE JESUS
Lucas faz aqui um resumo do que foi a reação popular à pregação de Jesus, e não apenas o que foi o início da pregação. A reação positiva está resumida no vers. 15: “E era glorificado por todos” , mostrando assim o acolhimento que muitos lhe fizeram durante toda a sua vida, e nas comunidades primitivas, da qual de uma delas Lucas fazia parte, e não apenas no início.

Já o versículo 28 mostra a reação negativa à sua pregação, ocorrida em toda a sua vida e já na comunidade primitiva, onde viveu Lucas, lembrando-nos de que este evangelho foi escrito quase 50 anos depois dos fatos, lido já numa humanidade que se dividia entre os que aceitavam ou não a pregação apostólica.

Naquele tempo Jesus tinha mais de 30 anos e podia ler publicamente o texto sagrado. Todos os judeus adultos podiam fazem essa leitura. No sábado era feita a leitura de um trecho do livro da Lei ( O Pentateuco, ou seja, os 5 primeiros livros da bíblia) e em seguida uma passagem dos livros proféticos, que podia ser escolhida pelo leitor. Jesus escolheu esse belo trecho de Isaías 61,1-2, mostrando que chegara a hora da liberdade, a vitória sobre qualquer tipo de opressão. Isso é mostrado pela cura dos cegos, dos coxos, da miséria, da escravidão (F.A.).

v. 22-b- Muitas vezes subestimamos a pessoa do pregador, porque achamos que o conhecemos: “ Não é este o filho de José?” Não só não conhecemos as pessoas, como também, muitas vezes, as julgamos mal. Levamos um susto quando vemos aqueles lábios abrirem e pronunciarem palavras sábias, lábios muitas vezes de pessoas analfabetas e com ares de ignorância nas atitudes.

Só Deus nos conhece. Ninguém mais. Temos também a “Síndrome do irmão do filho pródigo”, recusando-nos a aceitar em nossas comunidades certos tipos de pessoas, tal como os judeus, que ouviam Jesus, não aceitavam que os pagãos, como os exemplos dados por Jesus nos versículos 26 e 27 participassem do Reino.

Se olharmos abem o trecho lido por Jesus, vemos que ele omitiu, ou seja, não leu o versículo 2b do cap. 61 de Isaías, que dizia: “(eu vim proclamar) a vingança do nosso Deus”. Jesus não veio para vingar-se de nada, não veio para condenar, mas sim, veio trazer-nos a paz, o perdão, o recomeço de uma vida santa.

Lucas 4,31-44: JESUS ENSINA E CURA EM CAFARNAUM

v32- A autoridade de Jesus vinha de sua prática de vida e da coerência do que ensinava, aliadas aos sinais que ele mostrava ao curar e atender pacientemente as pessoas.

v. 35- Jesus não admite que o maligno dê testemunho de sua divindade e por isso pede que o demônio se cale: “Tu és o Santo de Deus”.

v.36- Todas as doenças desconhecidas daquele tempo eram explicadas como causadas pelo demônio. Muitas vezes tratava-se apenas de uma doença comum. As possessões reais são muito raras, mesmo naquele tempo. É um absurdo o engodo que certas denominações religiosas fazem ao “expulsarem” todos os dias os “demônios” de várias (muitas) pessoas. Isso não existe! Se o demônio conseguir a permissão de Deus para se apossar de alguma pessoa, só mesmo uma pessoa consagrada muito santa conseguirá expulsá-lo. Se for um demônio de verdade, este falará toda a “ficha” de vida do ministro exorcista.

Expulsar o demônio implicava curar a pessoa e, por “tabela”, perdoar seus pecados. Eles acreditavam que os pecados é que levavam a pessoa a ficar doente. Ora, se Jesus curava, é porque também perdoava e, portanto, era o Messias, ou melhor ainda, era o próprio Deus. Por isso, “sua fama se propagava por todo lugar da redondeza” (v. 37).

v. 38-39- A cura da sogra de Pedro entra nesse mesmo esquema; “(a febre) a deixou” ou seja, o “espírito impuro que a deixava com febre”.

v.40- Ao raiar do dia” - início de um novo dia, novas curas, novo programa. Jesus só a muito custo conseguia um tempo só para Ele e o Pai. Ele se sentia sozinho quando no meio da multidão. Só não não se sentia só quando estava com o Pai: “...e me deixareis sozinho. Mas eu não estou só, porque o Pai está comigo” (Jo 16,32b). Nós nos sentimos sozinhos quando as pessoas com quem vivemos não comungam com o nosso pensamento, ou não nos entendem. Quantos casais se encontram nesse patamar!

Entretanto eu pergunto: será que nós procuramos entender as pessoas que vivem, trabalham conosco, ou participam do mesmo lazer? Não será nossa solidão fruto de nosso auto afastamento?

V.44- Judeia” , aqui, tem sentido amplo: todo o país de Israel. Lucas repete isso em Lc 7,17; 23.5; Atos 10, 37; 28,21)

LUCAS CAPÍTULO 05



Lucas 5,1-11 – OS 4 PRIMEIROS DISCÍPULOS
Lucas agrupou nesta narrativa:
1- Uma descrição dos lugares e uma pregação de Jesus (vv 1-3);

2- A história de uma pesca milagrosa (vv4-10a), que se assemelha à de João 21,4-11;

3- O chamado de Simão (vv 10b-11), aparentado com Mc 1,17.20. Isso torna mais verdadeira a resposta imediata (dos apóstolos) ao chamado (BJ).

v. 8 - Jesus dá a Simão o apelido de Pedro (=pedra, rocha), somente mais tarde, no cap. 6,14. É uma antecipação literária.

Afasta-te de mim, Senhor, porque sou pecador!” A maneira de agir de Jesus faz com que o homem tome consciência da própria fraqueza (v.5-a) e indignidade (v.8), que são superadas pela fé na palavra de Jesus (v5b). Isto indica a disposição ao chamado que se concretiza em um deixar tudo (v. 11; ver também Mc 1 e Mt 4 ) (MD).

Lucas aproveita este trecho para exprimir a seu modo o primado de Pedro ( ver também cap. 22,31-32; cap 24,34): Jesus fala estando na barca de Pedro; os outros são pescadores porque chamados por Pedro (v 7) ou porque seguem Pedro, que foi constituído “pescador de homens” (v. 10, Jo 5,5-8.11). (MD)

Lucas 5,12-16 – A lepra sempre foi vista ligada ao pecado e até símbolo do pecado. Curar da lepra tem um sentido forte de perdoar os pecados. Ao Jesus tocar o leproso, ficava impuro, pela lei, e não podia entrar no templo até satisfazer as prescrições legais. Nós sabemos, entretanto, que não é Jesus que ficava impuro, mas sim o leproso que se purificava.

Assim também, ao ser batizado no rio Jordão, não é a água que o consagrou, mas sim ele, Jesus, é que consagrou a água, a água do nosso batismo.

Entretanto, Jesus não dava importância a essas leis de pureza ritual e tocava nos doentes. O doente de lepra tinha que mostrar sua cura ao sacerdote, que o liberava para retornar à sociedade. Muitas curas espontâneas eram de doenças de pele comuns, não eram lepra, e muitas vezes os doentes se curavam e, mostrando-se ao sacerdote, podiam voltar à consciência familiar.

Lucas 5, 17-26 : A CURA E O PERDÃO DO PARALÍTICO

Vejo aqui três ideias interessantes: uma delas é a de um diácono meu amigo: as pessoas que estavam na porta da casa onde estava Jesus foram egoístas e não deram passagem para o paralítico. São como certos tipos que vemos em nossas comunidades: dificultam ou mesmo impedem que nos aproximemos de Jesus e da comunidade.

A segunda ideia é a de quando Jesus perdoou os pecados do paralítico: pelas ideias do tempo ele deveria se curar, pois achavam que as doenças eram castigo pelos pecados. Se há pecado, há doença; se se perdoa o pecado, deve terminar a doença. Essa era a mentalidade. Jesus aproveitou essa ideia errada e, ao curar o paralítico, mostrou a todos, de modo “sacramental”, que perdoara os pecados do homem.

A terceira ideia é a explicação que a BJ dá para a diferença do telhado da casa. Aqui em Lucas, ele mostra uma casa típica do ambiente greco-romano (usadas na Grécia e em Roma), com telhas, ambiente esse em que vivera até então, enquanto que Marcos 2,4 mostra uma casa típica do ambiente palestinense, aliás, próprio de onde Jesus morava e pregava, com terraço, sem telhas.

Lucas 5,27-032 – A VOCAÇÃO DE LEVI

Levi é o nome hebraico de Mateus. Ele escreveu o primeiro evangelho, em aramaico, que não conhecemos, porque se perdeu. O Mateus que conhecemos surgiu depois do evangelho de Marcos e na mesma época que o de Lucas.

É de se esperar que a vocação dele não foi assim tão súbita como narra o evangelho. Se você tiver um tempinho, dê uma lida no que eu escrevi a respeito de Mateus neste blog (site), nesta mesma seção de estudos bíblicos.

Mateus provavelmente já via e admirava Jesus no seu dia a dia. O convite inesperado do mestre foi a “gota d'água” que o levou à decisão definitiva pelo seguimento de Jesus.

Como Zaqueu, ele era publicano, considerados marginais (da mesma forma que os pastores o eram), ladrões, homens sem caráter.

Jesus quebrou todas as normas e leis da época ao participar da “grande festa” dada por Mateus, onde ele misturou-se com os “pecadores”. Jesus disse aos fariseus e escribas que estava ali no meio deles não para ser contaminado e pervertido mas, pelo contrário, para ganhá-los para o Reino de Deus, pois veio “chamar os pecadores ao arrependimento” e não os “justos”. É claro que ao chamá-los de “justos”, Jesus foi bem irônico: os fariseus e escribas é que se autointitulavam “justos”, quando na verdade tinham pelo menos um pecado grave: a soberba.

Lucas 5,33-30: DISCUSSÃO SOBRE O JEJUM

Acho que podemos refletir, neste trecho, sobre um modo hipócrita de se fazer jejum hoje em dia. Diz o missal cotidiano, na Sexta-feira da 22ª semana do tempo comum, que o Cristão é o amigo do esposo, é o convidado às núpcias. Não jejua em horas fixas, segundo um calendário tradicional. Seu jejum consiste em participar vivamente na dor da paixão e morte de Jesus”.

Achei isso muito genérico. Eu diria que o jejum é bom, nos fortalece, mas não deve ater-se à alimentação: é preciso fazer um jejum PERMANENTE das coisas perigosas à nossa vida espiritual e das coisas que nos atrapalham a oração. Exemplos: tevê, internet exagerada, filmes, jogos, certas festas, más leituras, ira, preguiça, vingança, brigas, egoismo, querer sempre ser servido (a), bebidas etc.

LUCAS CAPÍTULO 06


 Lucas 6,1-5 : AS ESPIGAS ARRANCADAS NO SÁBADO. O problema aqui é o dia do sábado, em que não se podia fazer quase nada. O exagero do legalismo, em que a lei começou a ser imposta de modo irracional, a ponto de tornar o sábado, que seria um dia agradável, “tempo do encontro livre e amoroso entre o fiel e o Pai” (MC), e no NT através de Jesus, foi sufocado por uma enxurrada de leis absurdas e vazias.
 Como diz um documento da Igreja, “O dia do Senhor ressuscitado e elevado aos céus reúne os crentes em assembleia para torná-los sempre mais Igreja. É dia de alegria, de descanso do trabalho, de fraternidade” (RdC 116). Jesus se apresenta aos fariseus como rei, descendente de Davi. E se Davi não infringiu a lei porque estavam com fome, nem Jesus nem os apóstolos também não foram contra a lei ao pegarem as espigas para comerem. Não entro aqui em mais detalhes sobre essa lei, porque a mensagem é clara: o domingo foi feito para nós o curtirmos com a família, descansarmos, passearmos, e não para ficarmos sob uma tonelada de peso imposto pelas autoridades. Quanto ao fato de usarmos o domingo e não o sábado como dia de descanso, deve-se a três motivos:

1- Foi o primeiro dia da criação, dia que realmente existiu. O sábado não é realmente o dia em que Deus “descansou”, primeiramente porque Deus nunca está cansado; depois, porque Deus nunca está sem fazer nada: está sempre mantendo o mundo e a criação. Cada criança que é concebida, por exemplo, tem uma alma imortal criada por Deus no momento da concepção.

2- O domingo era dedicado, pelos romanos não cristãos, ao deus sol (até hoje, em inglês, domingo se chama “dia do sol” = Sunday). Era feriado e os cristãos aproveitavam para o dia de descanso e de encontro para a oração, principalmente para a Santa Missa participada por mais pessoas.

3- O mais importante, no domingo, é o fato da ressurreição de Jesus, que ressuscitou no primeiro dia da semana (portanto, domingo). Ao observarmos o domingo, estamos comemorando a ressurreição de Jesus. Não podemos usar o domingo para o pecado, nem para outras coisas mundanas que nos afastem de Deus. Se não for preciso, devemos também nos abster do trabalho no domingo, a não ser quando necessário, ou para fazer alguma caridade (por exemplo ajudar o vizinho a cobrir a casa dele, coisa muito comum na periferia, mas que sempre acaba numa gostosa feijoada...).

Lucas 6,6-11 – CURA NO SÁBADO (o homem de mão atrofiada). Achei tão bonito o comentário do Missal Cotidiano (MC) que simplesmente vou copiá-lo: “Jesus ensina curando. É bela a altivez com que 'volve o olhar sobre todos eles' e depois liberta o homem de sua doença, com vigor e autoridade. Jesus conhece o coração do homem e seus pensamentos, interpela, inquieta. Aqui está o segredo da autoridade com que ensina: não apenas ensina, mas liberta; não só conhece a lei como os outros rabis, porém conhece os homens, em sua malícia e em sua bondade; não põe no mesmo plano todas as prescrições da lei, mas põe a solidariedade e a fraternidade, a “salvação de uma vida” acima das observâncias exteriores do culto. E enquanto ele salva, os outros tramam sua ruína. Isso acontece ainda hoje no mundo”. (A.de Dominicis, Turim).

 Acrescento a ideia de que, ao curar a mão atrofiada, Jesus indica que deseja que continuemos a trabalhar sem desânimo (simbolismo das mãos), sejam quais forem as circunstâncias.

Lucas 6,12-16 – A ESCOLHA DOS DOZE Qual teria sido o critério usado por Jesus para escolher os doze apóstolos? Seria o mesmo usado para nos ter escolhido para a vocação a qual temos dado a nossa vida? Ninguém sabe! Apóstolo significa “enviado”. O termo já era conhecido no mundo grego e no mundo judaico(=sheliah). Com os apóstolos, toma o conceito de “testemunhas de Cristo, de sua vida, morte e ressurreição “ (BJ. Veja Atos 1,8).

Só Lucas diz que Jesus teve essa decisão, fez essa escolha na montanha, depois de passar a noite toda em oração. É um dos momentos mais importantes de sua missão, pois eles deveriam garantir o futuro (veja Atos 1,25). Formam um grupo, são os fundamentos do novo povo de Deus, os cristãos. A pedro, Jesus mudou o nome por estar recebendo uma missão própria. Pedro, masculino de “Pedra”, “Rocha” (=Cefas ou Kefas) (M.C). A ele foi confiado o governo da Igreja aqui na terra (ver Lucas 22,32; Mt 16,18-19)(TA) Como toda vocação, a dos apóstolos vai crescendo e se desenvolvendo aos poucos, na convivência e na familiaridade com Cristo, com os seus ensinamentos, com a experiência de sua Páscoa e com a descida do Espírito Santo (MC). Conosco não é diferente. Nossa vocação se enriquece na presença de Jesus.

O Dr Augusto Cury diz, num de seus livros, que Judas Iscariotes era o único que possuía uma estrutura adequada para ser apóstolo! Os demais, não tinham nenhum condição, pelo menos se olharmos externamente. Mas Deus olha o íntimo, o coração, e não a parte externa.

Lucas 6,17-19 – AS MULTIDÕES SEGUEM JESUS Esses versículos introduzem o “sermão da planície”, dizendo que Jesus desceu da montanha e fez esses ensinamentos à multidão das pessoas que o aguardavam. Aqui é preciso lembrar que a origem dessas pessoas e os nomes geográficos mostram um sentido de universalidade da Palavra de Deus. Não quer dizer que houvesse naquele local pessoas de todos os lugares mencionados. Aliás, Lucas repete isso nos Atos 2,5-11, em Pentecostes.

A Palavra de Deus a partir daí, foi pregada em todas as regiões do mundo. Quero lembrar aqui um ponto importante para a compreensão do modo como a bíblia foi escrita. Não podemos lê-la como se fosse um diário ou coisa parecida, ao pé da letra. Mateus coloca o “Sermão” na montanha porque é judeu e quer mostrar Jesus como um novo Moisés, dando uma nova lei, que completa a primeira. Lucas coloca o sermão na planície porque é de origem pagã e quer mostrar Jesus como Deus feito homem, que “desceu” ao mesmo nível que nós,seres humanos. O Sermão da Montanha, de Mateus, é mais completo que o de Lucas, mas aborda os assuntos com algumas diferenças de foco.

Lucas 6,20-26- DISCURSO INAUGURAL – AS BEM AVENTURANÇAS E AS AMEAÇAS. A forma deste discurso é mais breve aqui do que em Mateus, porque Lucas não fez as mesmas adições que Mateus e suprime aquilo que teria menos interesse para seus leitores não-judeus, principalmente com referência à Lei (confira Mt 5,17 a 6,18)- (BJ) . Em Mateus as bem aventuranças são oito e aqui, em Lucas, são quatro, acompanhadas dos correspondentes opostos, começados por “Ai de vós”. No v.20: Felizes os pobres; no v. 24, Ai de vós os ricos.