terça-feira, 1 de janeiro de 2013

O BEIJO DE JUDAS

(24/05/2005; postado em 01/01/2013)

Estando sozinho lendo um livro de Augusto Cury (Nunca desista de seus sonhos), fiquei boquiaberto com o magnífico texto do autor à página 43, que fala da perspicácia de Jesus ao reestruturar as mentes e as vidas de seus apóstolos. Nessa página ele fala do amor tão profundo que Jesus sentia por todos, inclusive por Judas, que o traiu.

Naquele instante em que recebeu dele o beijo que ficou tão famoso, talvez Jesus não estivesse preocupado tanto com a morte, como pelo que seria de Judas dali em diante. O autor comenta: "Jamais uma pessoa traída (Jesus) amou tanto um traidor (Judas).

Olhei para o céu, que se mostrava cor de chumbo pelas nuvens de chuva, que se "derretiam" abundantes sobre o local em que eu me encontrava. Fiquei quase em êxtase quando aquele texto entrou no mais íntimo do meu coração, e eu passei a perceber quantas vezes a gente sente esse amor de Jesus em nossa vida, e quantas vezes nos acovardamos, como Judas, e não nos abandonamos a Jesus.

Judas poderia ter aproveitado aquele instante para mudar de vida. Se a mulher que tinha hemorragia curou-se apenas tocando com a mão a orla das vestes de Jesus, e se este sentiu que saíra dele uma força (Lc 22,48), quanto mais Judas não teria sentido a força divina de Jesus após beijá-lo?

Aquelas palavras de Jesus eram de indignação: "Judas, com um beijo trais o Filho do Homem?"(Lc 22,48). Ao mesmo tempo eram de um desejo íntimo que Judas superasse a tentação e se convertesse, se colocasse totalmente ao amor de Jesus.

A santidade de Jesus talvez tivesse sido sentida por Judas. Ela nos incomoda, nos questiona e nos "põe contra a parede". Cabe a nós aceitá-la ou não em nossa vida, ou descartá-la, como fizera no início São Pedro, que depois resolveu aceitá-la:"Afasta-te de mim, Senhor, que sou um homem pecador"! (Lc 5,8).

Essa santidade, Deus prometeu que nos transmitiria, se aceitássemos a purificação exigida e permitida por ele:"Deus nos purifica (com os sofrimentos) para que possa nos transmitir sua santidade " (Hebreus 12,10).

Quando sofremos, sentimos Jesus nos transmitindo um pouco de sua santidade e de seu amor. Com esse pouco, que só não é maior apenas pelo fato de que nos resta muita purificação ainda, já podemos sentir, como Jeremias20,9, o amor de Deus "concentrado nos meus ossos, como um fogo abrasador", quanto mais não teria sentido Judas, ao dar-lhe aquele beijo?

Duas forças puseram-se a lutar para tomar conta do coração dele: o amor misericordioso de Jesus, sua santidade, por um lado, e o sentimento de derrota, de culpa e de frustração, de fraqueza, por outro lado.

São Paulo passou, anos mais tarde, por esse mesmo dilema, venceu-o, como Jesus quer que também nós o vençamos. Sim, porque nós também sempre estamos entre essas duas forças, uma querendo nos arrastar para o individualismo, para o egoísmo, enfim, para o mal, e a outra, querendo nos elevar até o céu.

É o que diz S. Paulo em Rom 7,23: "Vejo nos meus membros outra lei que se opõe à lei do meu espírito, e que me faz escravo da lei e do pecado, que está nos meus membros" (Rom 7,23).

S.Paulo conclui com palavras que nos fazem de Deus, que sempre nos perdoa quando nos propomos mudar de vida:"Assim, pois, eu mesmo sirvo à lei de Deus com o espírito, e sirvo à lei do pecado com a carne"(Rom 7,25). "Quem me livrará desse corpo de morte? Somente a graça de Deus, por Jesus Cristo Senhor nosso" (Rom 7,24).

Já S.Pedro, no início, pedira a Jesus que se afastasse dele, como na citação acima de Lc 5,8). Entretanto, afirma com muita fé e amor: "Simão Pedro respondeu a Jesus: Senhor, para quem havemos de ir? Tu tens palavras de vida eterna, e nós acreditamos e conhecemos que tu és o Santo de Deus!" (João 6,70).

Neste ponto do texto, eu não consegui continuar. Parei por uns instantes e contemplei novamente o céu chuvoso. Que palavras doces! "A quem iremos?(...)Só tu tens palavras de vida eterna!"

Fiquei com vontade de parar de escrever para saborear melhor essas palavras! "Só tu tens palavras de vida eterna! Só tu!" Só Jesus pode, realmente, nos confortar "Neste vale de lágrimas"! Só ele pode nos dar aquela segurança e confiança de que poderemos um dia morar com ele no paraíso!

"Uma só coisa peço ao Senhor, e só esta procuro: habitar na casa do Senhor todos os dias da minha vida, para gozar a doçura do Senhor e visitar o seu templo" (Salmo 26-27, v.4).

Voltando ao caso de Judas, podemos então imaginar o desgaste que ocorreu em sua mente quando ele se degladiava com essas duas forças. Quanta ternura ele sentira ao dar aquele beijo em Jesus! Em Jesus, que ele estava traindo!

Infelizmente seu desespero foi maior do que sua humildade, e acabou se enforcando. Cabe a nós não seguirmos esse mesmo caminho do desespero, mas o da confiança na poderosa misericórdia de Deus, como a sentiu S. Paulo, S. Pedro e tantos outros.

A quem iremos nós, Senhor? Só tu tens palavras de vida eterna! "O Senhor é a minha luz e a minha salvação, a quem temerei? O Senhor é o defensor de minha vida, diante de quem tremerei?" (Salmo 26/27, 1).



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