sábado, 29 de dezembro de 2012

MATEUS, O PUBLICANO

Era uma vez um publicano, cobrador de impostos. Seu nome era Mateus. Trabalhava na alfândega de Cafarnaum, na cobrança de impostos de importação. Era provavelmente alugada, com alguns funcionários a seu serviço. O negócio ia bem, cada vez mais próspero. Mateus, entretanto, não dormia bem havia dias. É que sempre via por ali um homem justo, chamado Jesus, que falava coisas tão bonitas, tão verdadeiras, tão justas! E ele se sentia tão preso àquele seu negócio lucrativo e tão próspero!

Entretanto, sentia que estava colocando alta demais a taxa de impostos sobre as importações. Se cobrasse menos do que aquilo ainda dava para pagar o aluguel e os seus funcionários. Mas... como é bom ganhar dinheiro! Nunca é demais! Come-se do melhor, bebe-se do melhor vinho... e os fariseus, que se danem com suas leis ridículas!

Mas a figura daquele homem simples não saía de sua mente, de seu coração. Que poder estranho ele possuía em seu olhar de pobre! Seu olhar penetrava fundo na alma, incomodava como um carvão em brasa a queimar o coração.

Imerso nesses pensamentos, não notara o olhar terrível de um fariseu que o censurava: "O que o senhor quer, sr. fariseu?"
perguntou-lhe Mateus, logo que o percebeu. -"Seu publicano de uma estúpido! Ladrão! Injusto! Comilão!" - respondeu-lhe o fariseu.

-"Eu sou santo! Sou perfeito!"-
berrou-lhe o fariseu. "Veja o que você fez! Emporcalhou-me com sua presença e sua conversa! Agora preciso ir ao templo para me purificar!"

Mateus sentiu um calafrio percorrer=lhe a espinha. Teve vontade de matar aquele fariseu nojento e fingido. Mas, ao vê-lo entrar no templo, sentiu sua cólera diminuir-se. Percebeu quão verdadeiras eram aquelas palavras. Resolveu ir ao templo também.

Quando Mateus entrou, o fariseu o viu e começou a orar em voz alta: "Ó meu Deus, eu te dou graças porque não sou como o resto dos homens: ladrões, injustos, adúlteros, e nem como este publicano. Jejuo duas vezes por semana, pago o dízimo de todos os meus rendimentos" (Lc 18,11b-12).

E saiu, batendo os pés, jogando um punhado de moedas no cofre, que tilintaram. Mateus, cabisbaixo, rezava em silêncio. Ele, na verdade, nem poderia fazer a Deus aquela oração do fariseu. Ele era realmente tudo aquilo que o fariseu disse não ser. E sentiu um profundo arrependimento pela injustiça e desonestidade que até ali guiara sua vida. E sentiu a luz de Deus iluminar-lhe completamente o coração. E, caindo de joelhos, "manteve-se à distância, não ousava sequer levantar os olhos para o céu, mas batia no peito, dizendo: 'Meu Deus, tem piedade de mim, pecador' "(Lc 18,13).

E sentiu o perdão de Deus a purificar-lhe todo o ser. E lembrou-se daquele homem Jesus. Seu olhar dava aquela mesma sensação ao mesmo tempo de remorso e de bem-estar. Agradeceu e saiu,sorridente. Mas, a caminho de sua casa, viu uma multidão numa casa. Curioso, foi até lá e presenciou um milagre: a cura de um paralítico por Jesus. Mas o que mais lhe chamou a atenção foi o que aquele homem disse ao paralítico: "Tem ânimo, filho; os teus pecados estão perdoados" (Mt 9,2).

Que maravilha! Esse homem é capaz até de perdoar pecados?! E acreditou nisso, porque o paralítico voltou a andar. Naquele tempo as pessoas acreditavam que o defeito físico era castigo pelos pecados cometidos. Se o paralítico se curou, pensavam eles, é porque Jesus perdoou mesmo os seus pecados. E se ele perdoou os pecados, ele é o próprio Deus, ou pelo menos tem muita amizade com Deus. Isso mostrava que Jesus era o Messias esperado.

Mateus saiu dali confiante, sorridente. Afinal conhecera alguém pelo qual valia a pena vive. E, ao chegar novamente à alfândega, tudo parecia mudado: tinha um gosto amargo. Que fazer? Como mudar uma engrenagem tão bem montada como aquela? Como mudar o sistema? E não conseguia encontrar uma solução, até que o sol começou a se enfraquecer: ia sumir no horizonte todo róseo. Mateus arrumou suas coisas e, sempre pensativo, ia embora.

Não sabia como dar o primeiro passo em direção a Jesus. De repente, ao olhar adiante, viu-se frente a frente com aquele homem Jesus. Seus olhos faiscavam a misericórdia de Deus. Mateus não pôde articular uma só palavra: estava aterrorizado! Aquele homem parecia ler os seus pensamentos! Procurou limpar a mente, para que ela não fosse lida!

Mas Jesus, com aquela humildade e mansidão de coração, tomou a iniciativa: estendeu a mão para Mateus e disse-lhe apenas uma palavra, mas que tinha o peso imenso de tudo o que Mateus já o vira fazer: "Segue-me"(Mt 9,9).

Mateus, como que dando um pulo no escuro, viu realizada aquela sua oração no templo. Confiou plenamente em Jesus. E o seguiu. mas, quando sua voz voltou, disse-lhe: "Mestre, vem jantar conosco!"

E Jesus foi à casa de Mateus, que lhe deu uma festa, para comemorar sua nova vida e, ao mesmo tempo, despedir-se de seus dias tristes e medíocres de publicano (Lc 5,29).
E todos os que haviam sido lesados, receberam de volta o que lhes tinha sido roubado pela equipe de Mateus, como também mais tarde iria ocorrer com Zaqueu. E Mateus tornou-se Apóstolo! Pobre como Jesus, mas rico como Deus.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Ir. ANANIA - A CONVIVÊNCIA


CONVIVÊNCIA COMUNITÁRIA SEGUNDO A IRMÃ ANANIA IMC – MISSIONÁRIA DA CONSOLATA

Nasceu em 13/05/1920, atualmente com quase 93 anos, sendo 73 anos vivendo em comunidade.

 

Deus nos ama e por isso quer nossa alegria! Vou falar alguma coisa sobre a vida comunitária, a que somos submetidos diariamente.

Vivemos em comunidade sem escolher as pessoas e caminhamos juntos. Cada um é um e tem o seu temperamento. Eu, ele, ela, somos do jeito que somos.

Na Quinta-feira Santa, o Evangelho acompanhado da liturgia nos mostra o “Lava-pés” faz todo um processo de lembrar constantemente a mim mesma que  “eu não posso exigir que quem vive ao meu lado seja do jeito que eu gostaria que fosse”.  E todo este processo leva a pessoa a deixar o espaço para que a outra ou o outro SEJA. É esta a grande lição do Lava-pés.

Pensamos refletindo: “Por que às vezes sou tão exigente com quem vive ao meu lado? Por que olho as diferenças como ameaças e não as vejo como algo que pode me ajudar a crescer? Por que não me convenço de que caminhar em companhia é menos pesado do que carregar sozinha, sozinho, os pesos, as preocupações, os maus momentos, e a partilha é sempre a melhor saída?”

Lemos em São João Bergman: "Máxima penitência é a vida em comum”. E é a verdade. Pensamos em Jesus, na vida diária com os apóstolos, quanta paciência! Quantas renúncias para não responder! E quando responde, com que mansidão!

Compreendo que para muitos de vocês, como as que estão nas penitenciárias e ambientes em que não há como deixar de viver em companhia a tais e tais pessoas, mesmo em família, deve ser uma grande penitência suportar os (as) colegas, muitas vezes pessoas revoltadas, vingativas, nervosas, sem educação, cheios de si, não se importando com as outras, orgulhosas etc, etc.

O conselho que posso dar a vocês que estão nessa situação forçada é fazer silêncio e a “guerra” acaba. Pensem: então não adianta falar. A razão é sempre deles. O orgulho é algo demoníaco!

Quando vocês percebem que alguma palavra ou seu modo de agir pode atrapalhar, não digam e não façam. Eu considero isso “morrer continuando vivo”. Todos temos a nossa sensibilidade e o mais esperto e o mais virtuoso é o que fica calado. Isso é duro, mas nós, consagrados, devemos caminhar neste caminho.

Jesus lavou os pés de Judas, mesmo sabendo que ele era o traidor! Peçamos a Jesus a graça de aprender a ser humildes e mansos de coração, como Ele era! (Mt 11,29).

Tudo isso que falo para vocês serve também para mim, mesmo que vivo em comunidade bem diferente da de muitos de vocês. Desde 1940 vivo em comunidade e a experiência me diz que, quanto menos falo, mais ganho.

Porém, eu me sinto amada, compreendida, é minha alegria viver junto. As conversas não trazem confusão, mas ajudam a crescer, porque se vê em ambas as partes que, se queremos bem, o que acontece são coisas humanas: hoje eu, amanhã você, e tudo acaba.

Eu sou feliz por viver em comunidade e agradeço ao Senhor de ver muitos exemplos bons que me ajudam a ser melhor. Para viver em comunidade se deve admitir que todos temos o nosso modo de ser: Se eu quero que me suportem, também devo suportar os outros, as outras. Quero sempre ter razão, mas os outros também querem tê-la, e como se faz? Cala-se, e os outros também se calarão por sua vez.

Irmãos que estão nas prisões e lugares de convivência forçada, mesmo em alguns ambientes familiares em que não se pode mandar os maus embora, a situação de vocês é dura, e compreendo muito bem, pois trabalhei por 30 (trinta) anos com os presos e conheço um pouco a vida deles. Numa das penitenciárias trabalhei com a PAC. Passava cineminha para eles, nunca me faltaram com respeito e me queriam bem, como eu queria a eles.

Deus esteja em seus corações e lhes faça sentir cada vez mais a beleza do dom da vida, única, que passa e não volta mais. Aproveitem a vivê-la como um incenso derramando a cada dia o perfume do seu testemunho do amor a Deus por tê-los escolhido pelo Batismo, e amado.

Os sofrimentos pelos quais vocês possam estar passando não são castigos, mas uma prova de amor a respeito de vocês, porque oferecendo a Ele os seus sofrimentos, os purifique e os faça grandes santos e santas.

Rezo sempre por todos os que sofrem, e digo a Nossa Senhora, a Mãe puríssima, que os e as guarde, os e as proteja e faça vocês todos e todas sentirem o carinho de Mãe.

Um feliz ano novo para todos e todas vocês.

           Irmã Anania, Missionária da Consolata.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

BENTO XVI E O ANO DA FÉ


Todas as postagens deste blog estão inseridas no MEUS POBRES RASCUNHOS, num modelo mais dinâmico. Vale a pena conferir! Basta clicar no link acima
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· Queridos irmãos e irmãs,


Hoje gostaria de introduzir o novo ciclo de catequeses, que se desenvolve ao longo de todo o Ano da fé, recém-iniciado, e que interrompe — durante este período — o ciclo dedicado à escola da oração. Mediante a Carta Apostólica Porta Fidei proclamei este Ano especial, precisamente para que a Igreja renove o entusiasmo de crer em Jesus Cristo, único Salvador do mundo, reavive a alegria de percorrer o caminho que nos indicou e testemunhe de modo concreto a força transformadora da fé.

A celebração do cinquentenário da inauguração do Concílio Vaticano II é uma ocasião importante para voltar para Deus, a fim de aprofundar e viver com maior coragem a própria fé, para fortalecer a pertença à Igreja, «mestra em humanidade» que, através do anúncio da Palavra, da celebração dos Sacramentos e das obras de caridade, nos orienta para encontrar e conhecer Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Trata-se do encontro não com uma ideia, nem com um projeto de vida, mas com uma Pessoa viva que nos transforma em profundidade a nós mesmos, revelando-nos a nossa verdadeira identidade de filhos de Deus. O encontro com Cristo renova os nossos relacionamentos humanos, orientando-os no dia-a-dia para uma maior solidariedade e fraternidade, na lógica do amor. Ter fé no Senhor não é algo que interessa unicamente à nossa inteligência, ao campo do saber intelectual, mas é uma mudança que compromete a vida, a totalidade do nosso ser: sentimento, coração, inteligência, vontade, corporeidade, emoções e relacionamentos humanos. Com a fé muda verdadeiramente tudo em nós e para nós, e revela-se com clareza o nosso destino futuro, a verdade da nossa vocação no interior da história, o sentido da vida, o gosto de sermos peregrinos rumo à Pátria celeste.

Mas — perguntemo-nos — a fé é verdadeiramente a força transformadora da nossa vida, na minha vida? Ou então é apenas um dos elementos que fazem parte da existência, sem ser aquele determinante, que a abrange totalmente? Com as catequeses deste Ano da fé gostaríamos de percorrer um caminho para fortalecer ou reencontrar a alegria da fé, compreendendo que ela não é algo de alheio, separado da vida concreta, mas é a sua alma. A fé num Deus que é amor, e que se fez próximo do homem, encarnando e doando-se a si mesmo na cruz para nos salvar e reabrir as portas do Céu, indica de modo luminoso que a plenitude do homem consiste unicamente no amor. 

Hoje é necessário reiterá-lo com clareza, enquanto as transformações culturais em curso mostram com frequência tantas formas de barbárie, que passam sob o sinal de «conquistas de civilização»: a fé afirma que não há humanidade autêntica, a não ser nos lugares, nos gestos, nos tempos e nas formas como o homem é animado pelo amor que vem de Deus, se expressa como dom, se manifesta em relações ricas de amor, de compaixão, de atenção e de serviço abnegado ao próximo. Onde existe domínio, posse, exploração, mercantilização do outro por egoísmo próprio, onde há arrogância do eu, fechado em si mesmo, o homem torna-se pobre, degradado, desfigurado. A fé cristã, laboriosa na caridade e forte na esperança, não limita mas humaniza a vida, aliás, torna-a plenamente humana.

A fé é o acolhimento desta mensagem transformadora na nossa vida, o acolhimento da revelação de Deus, que nos faz conhecer quem Ele é, como age, quais são os seus desígnios para nós. Sem dúvida, o mistério de Deus permanece sempre além dos nossos conceitos e da nossa razão, dos nossos ritos e das nossas preces. Todavia, com a revelação é o próprio Deus quem se autocomunica, se descreve, se torna acessível. 

E nós tornamo-nos capazes de ouvir a sua Palavra e de receber a sua verdade. Eis, pois, a maravilha da fé: Deus, no seu amor, cria em nós — através da obra do Espírito Santo — as condições adequadas para que possamos reconhecer a sua Palavra. O próprio Deus, na sua vontade de se manifestar, de entrar em contato conosco, de se fazer presente na nossa história, torna-nos capazes de o ouvir e acolher. São Paulo exprime-o assim, com alegria e reconhecimento: «Nós não cessamos de dar graças a Deus, porque recebestes a palavra de Deus, que de nós ouvistes, e porque a acolhestes não como palavra de homens, mas como aquilo que realmente é, palavra de Deus, que age eficazmente em vós, fiéis» (1 Ts 2, 13).

Deus revelou-se mediante palavras e obras em toda uma longa história de amizade com o homem, que culmina na Encarnação do Filho de Deus e no seu Mistério de Morte e Ressurreição. Deus não só se revelou na história de um povo, nem falou só por meio dos Profetas, mas atravessou o seu Céu para entrar na terra dos homens como homem, para que pudéssemos encontrá-lo e ouvi-lo. E de Jerusalém o anúncio do Evangelho da salvação propagou-se até aos confins da terra. 

A Igreja, nascida do lado de Cristo, tornou-se portadora de uma esperança nova e sólida: Jesus de Nazaré, crucificado e ressuscitado, Salvador do mundo, que está sentado à direita do Pai e é Juiz dos vivos e dos mortos. Este é o kerigma, o anúncio central e impetuoso da fé. Mas desde o início levantou o problema da «regra da fé», ou seja, da fidelidade dos crentes à verdade do Evangelho, na qual permanecer firmes, à verdade salvífica sobre Deus e sobre o homem, que se deve conservar e transmitir. São Paulo escreve: «Recebereis a salvação, se o mantiverdes [o Evangelho] como vo-lo anunciei. Caso contrário, em vão teríeis abraçado a fé» (1 Cor 15, 2).

Mas onde encontramos a fórmula essencial da fé? Onde encontramos as verdades que nos foram fielmente transmitidas e que constituem a luz para a nossa vida diária? A resposta é simples: no Credo, na Profissão de Fé, ou Símbolo da Fé, nós relacionamo-nos com o acontecimento originário da Pessoa e da História de Jesus de Nazaré; torna-se concreto quanto o Apóstolo das nações dizia aos cristãos de Corinto: «Transmiti-vos primeiramente o que eu mesmo tinha recebido: que Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras; foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia» (1 Cor 15, 3-4). 

Ainda hoje temos necessidade que o Credo seja melhor conhecido, compreendido e pregado. Sobretudo, é importante que o Credo seja, por assim dizer, «reconhecido». Com efeito, conhecer poderia ser algo simplesmente intelectual, enquanto «reconhecer» quer significar a necessidade de descobrir o vínculo profundo entre as verdades que professamos no Credo e a nossa existência quotidiana, para que estas verdades sejam deveras e concretamente — como sempre foram — luz para os passos do nosso viver, água que rega a aridez do nosso caminho, vida que vence certos desertos da vida contemporânea. No Credo insere-se a vida moral do cristão, que nele encontra o seu fundamento e a sua justificação.

Não é por acaso que o Beato João Paulo II quis que o Catecismo da Igreja Católica, norma segura para o ensinamento da fé e fonte certa para uma catequese renovada, se inspirasse no Credo. Tratava-se de confirmar e conservar este núcleo fulcral das verdades da fé, comunicando-o numa linguagem mais inteligível aos homens do nosso tempo, a nós. É um dever da Igreja transmitir a fé, comunicar o Evangelho, a fim de que as verdades cristãs sejam luz das novas transformações culturais, e os cristãos se tornem capazes de explicar a razão da sua esperança (cf. 1 Pd 3, 14). Hoje, vivemos numa sociedade profundamente transformada, também em relação a um passado recente, e em movimento contínuo. Os processos da secularização e de uma difundida mentalidade niilista, em que tudo é relativo, marcaram profundamente a mentalidade comum.

Assim, a vida é muitas vezes levada com superficialidade, sem ideais claros nem esperanças sólidas, no contexto de vínculos sociais e familiares fluidos, provisórios. Sobretudo as novas gerações não são educadas para a busca da verdade e do sentido profundo da existência, que ultrapasse o contingente, para a estabilidade dos afetos, para a confiança. Ao contrário, o relativismo leva a não ter pontos firmes, suspeita e volubilidade provocam rupturas nos relacionamentos humanos, enquanto a vida é vivida com experiências que duram pouco, sem assunção de responsabilidade.  Obrigado! 



Bento XVI, catequese, 17/10/2012 

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

COMO FAZER UM RETIRO ESPIRITUAL

(veja logo após este texto, um artigo importante sobre abortos que nasceram vivos no Canadá...)


O QUE É UM RETIRO ESPIRITUAL?

“Solidão, recolhimento, vida interior. Queres encontrar a Deus?”“Afasta-se das criaturas”.

São Maximiliano Maria Kolbe Sacerdote e Mártir

Buscar um tempo para si mesmo junto ao bom Deus. Um retiro espiritual deve ser marcado por este principal objetivo. Vivemos hoje num mundo de grande velocidade, agilidade de informação e compromissos diversos, onde, quase sempre, não temos tempo para nada e se não tiver tempo para Deus à morte espiritual é absolutamente certa! O ser humano, em especial os dedicados à vida religiosa, necessita de uma parada nas atribuições do dia-a-dia para ampliar esse contato ardente com o Pai celestial. 

O retiro torna-se este momento no qual paramos para refletir sobre nós mesmos, sobre a nossa condição de vida; para pensar em como estamos vivendo, quais motivações para as tarefas que realizamos e para o modo de vida que temos; como estamos agindo e nos comportando no meio da sociedade.

Enfim, uma série de questionamentos que podem ser respondidos por meio do silêncio, da oração e de um aproximar-se mais intenso ao Senhor Deus. O silêncio e o recolhimento na oração foram e são marcas constantes na Tradição da Igreja. Diversos exemplos de retiro e tempo para um encontro espiritual aparecem na Sagrada Escritura e na história da vida orante ao longo dos séculos. Os apóstolos permanecem no Cenáculo, por nove dias, na oração e no silêncio e esperaram a manifestação do Espírito Santo.

Os eremitas, os monges até hoje seguem para o deserto onde se entregam ao conhecimento de si próprios e a união com Deus, para irradiarem a vida na Igreja e na sociedade com sua profunda sabedoria e mística. 

Nos Santos Evangelhos, o exemplo de Nosso Senhor Jesus Cristo que se afastava das multidões que o seguiam e retirava-se para um ermo onde pudesse entregar-se a contemplação. Antes de iniciar a sua vida pública, recolheu-se a um deserto onde sua natureza humana foi posta a prova, sem que o demônio a pudesse dominar. Com seus discípulos, igualmente, ao voltarem da missão, retirava-se com eles para que pudessem, na solidão,estar a sós com Deus. (Cf. Mt 4,1-11; 14,23; Mc 1,35).

O santo retiro, o recolhimento e a oração tornam-se mais necessários para superarmos as forças e nos realizarmos como pessoas criadas à imagem e semelhança de Deus, nos tornarmos à imagem de Cristo. É num retiro que somos convidados a nos entregarmos nos braços do bondoso Deus, confiarmos a ele toda a nossa vida. O retiro é um momento rico e oportuno para renovarmos a nossa vida de oração e nossa espiritualidade.

A palavra clássica para retiro, silêncio e recolhimento é tebaida. “A pratica do silêncio, da meditação e da oração favorecem diversas áreas cerebrais, tornando-as mais pacientes e altruístas”, afirmou a Dra. Adriana Gini, neurorradiologista italiana. 

NOSSO DESEJO PARA DEUS

A grande mística e Doutora da Igreja Santa Teresa de Ávila disse: “A alma sente um desejo irresistível de Deus”. O ser humano foi constituído com desejos, conhecimentos e transcendências. O nosso desejo atua de várias formas, porque somos carentes de tudo e estamos aspirando ao incomensurável. O nosso anseio é de fato e de verdade pelo impossível e pelo desconhecido da eternidade.

Arde dentro de nós a vontade revelativa do segredo, do misterioso. “O ínclito mestre da espiritualidade cristã Santo Agostinho de Hipona, a partir de sua abissal experiência com Deus, escreveu: ‘Fizeste-nos para ti e o nosso coração não descansa enquanto não repousar em Ti”. Daí, entendemos que o ser humano tem profunda fome e sede de Deus. 

Somente Deus pode satisfazer todos os nossos desejos. Ele colocou dentro de nós a eternidade (Ecl 3,11).

Temos a capacidade nata de comunhão com Deus. Cada ser humano traz no seu coração a marca de pertença ao Senhor Deus e atração do seu infinito amor. O maior desejo do ser humano é ver seu Criador, estar com Ele e viver para sempre com Ele. Deus é amor, e viver esse amor é viver a infinidade da felicidade.

O DESERTO

Disse o Senhor: “Vou conduzi-la ao deserto e falar-lhe ao coração’ (Os 2,16). O retiro espiritual no deserto é uma modalidade específica a certas pessoas que o Senhor Deus direciona para uma intimidade abissal e uma missão grandiosa em prol da restauração individual e coletiva. Moisés (Ex 3,1-12); Elias (1 Rs 19, 4-8); João Batista Lc 1,80; 3,2); Jesus (Mt 4,1);Paulo (Gl 1,17.21; 2,1; (2 Cor 11,26). Os Padres do deserto, os eremitas, os monges, e os místicos.

Deserto é fator de solidão e silêncio. Solidão aqui é o todo ser da pessoa com a Santíssima Trindade e os anjos. Na solidão tomamos distância de toda materialidade e do contexto geográfico. É a dimensão absoluta do espírito, ou seja, liberdade da sua autêntica imaterialidade. O lugar, o tempo e a missão são por conta de Deus.

O silêncio é o colóquio da alma é a comunicação mais hipotalássica comigo, com Deus e com o próximo. Capacidade profunda de escuta que flui em nossa consciência a nossa realidade. O silêncio interior é o espaço total para a nossa alma e o silêncio exterior é a ausência total do barulho e de todo atrapalho.

CONCLUSÃO

Precisamos bastante de retiros espirituais. É uma excelente prática para cura, libertação e salvação. Fonte de saúde física, emocional e espiritual. Buscar conhecer vários tipos de retiros para crescer na graça e na sabedoria espiritual. Retiro é o mar de bênção que podemos mergulhar a alma com profundidade.

De todas as nossas atividades o tempo para o nosso retiro é sagrado. Nada, absolutamente nada, é mais importante do que o tempo de comunhão com Deus. O retiro é o tempo sacramentado para o alimento da nossa fé, robustez do amor, fortaleza de nossas virtudes e a gloriosa paz de espírito.

Sem tempo para Deus a pessoa vive rasa, vazia, superficial, virtual, parcial e infernal.

O retiro espiritual é graça abundante para todo o nosso ser.

Pe. Inácio José do Vale - Professor de História da Igreja Instituto Teológico Bento XVI - Pregador de Retiros Espirituais - Sociólogo em Ciência da Religião

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

O DESERTO AMAZÔNICO



Desertificação

As serras trabalham intensamente, obra de dementes, e a floresta amazônica, aos poucos se irá acabando. Quantos anos isso demorará para acontecer? Não sei. Só sei que meus tetranetos, um dia encontrarão fósseis de peixes, botos, animais silvestres, no grande sítio arqueológico deserto, que um dia fora conhecido como “Floresta Amazônica”.

Já no céu, ouvirei uma história semelhante a esta de como tudo terminou:

Havia uma única árvore, deixada pelos madeireiros, preservada pela luta inglória dos nossos já conhecidos e desprezados defensores da natureza. Estava cercada, policiada, bem tratada, era o único exemplar em toda a região Norte.

Os pássaros ali se aninhavam, comiam de seus frutos, dali se propagavam pelo imenso deserto sem oásis.
Deus, nosso Senhor, lamentava tudo isso. Com quanta alegria criara as árvores e toda a natureza! Tirara o Saara de dentro do mar para que os homens o florestassem, mas em vez disso, criaram mais desertos.

Com sua ajuda, poderiam até florestarem o Saara! Com sua ajuda, os madeireiros do Brasil teriam sobrevivido sem devastar a floresta!

Vendo aquela hipocrisia de algumas pessoas que tentavam “endeusar” a única árvore restante, ergueu-se de seu majestoso trono, olhou para os anjos e santos que o contemplavam, assustados, viu no inferno alguns desses cruéis madeireiros, e se irritou.
Num ímpeto de indignação, lançou um raio fulminante sobre a tal única árvore, e num instante ela secou.

Muitos desertos continuarão na história da humanidade. O deserto amazônico será um deles. Mas o maior deserto, o maior mesmo, sem dúvida alguma, é o coração do homem que não confia em Deus! (Teófilo Aparecido, 02/12/2012).