terça-feira, 27 de novembro de 2012

FESTA DE CRISTO REI



25/11/2012 – 

É a festa que celebramos no último (34º) domingo do tempo comum, imediatamente antes do Advento. Diz o Missal Dominical: “Jesus Cristo é rei porque é o único mediador da salvação de toda a criação. Nele todas as coisas encontram seu acabamento, sua verdadeira subsistência, segundo o desígnio criador de Deus”.

Houve um entendimento “atravessado” nesse fato da realeza de Cristo na História da Igreja do passado, por causa destas premissas:

1-Cristo é Rei todo-poderoso;

2- O Papa e seus sucessores, assim como os bispos, são os representantes dele aqui na terra;

3- Portanto, o papa e os bispos devem ser também tão poderosos como Jesus, aqui na terra, serem reverenciados, servidos e venerados.

Isso causou grandes males na terra. O papa tornou-se um senhor poderoso, que mandava até nos reis e rainhas, tinha grande poder econômico. Graças a Deus que hoje em dia as coisas aos poucos voltam ao normal, ou seja, a Igreja é servidora, e não egrégia senhora.

Hoje em dia há uma certa tendência por parte de alguns membros do clero, em portar-se, como dizia um pregador de retiros, “de tal modo que nada deixam a desejar à rainha de Sabá”.

Precisamos sanar essa falha em nossa Igreja, com o mesmo afã com que combatemos a pedofilia e coisas desse tipo.

Jesus foi bem claro ao afirmar que não veio para ser servido, mas para servir (Jo13,14-15; Mt 20,28). Já dizia um de nossos bispos eméritos (não sei se o D. Pedro Casaldáliga ou D. Valfredo Tepe) que “Ou a Igreja de Cristo é pobre ou não é a Igreja de Cristo!”.

É preciso tomarmos cuidado com o modo como entendemos o reinado de Cristo, para não cairmos no mesmo erro que nossos antepassados, ao tentar fazer com que a Igreja dominasse em todos os sentidos, mesmo materialmente, sobre tudo e todos.

A atitude de quem pensa que tem ou está no poder é olhar os outros de cima para baixo. Ao atender alguém, sente-se como o rei atendendo o súdito.

Vejo como é comum em todos os lugares: quem toma conta da chave, manda do “pedaço” e todos devem reverenciá-lo ou pelo menos submeter-se aos seus caprichos. 

Vejam isso na comunidade ou em qualquer grupo de pessoas: basta um pouco de poder e a pessoa, que até então parecia humilde e simples, se torna uma pessoa altiva, achando que “tem o rei na barriga”. A única pessoa que teve o rei na barriga foi, de fato, Maria, quando concebeu Jesus, e é a mais humilde criatura que até então apareceu aqui na terra!

Uma das consequências de quem pensa que “está com tudo” é o modo de atendimento. Uma pessoa humilde, que sabe que está a serviço e não para ser servida, é sempre humilde, serviçal, sempre está pronta a atender qualquer que seja. Veja como Jesus atendia a todos, embora sempre estivesse rodeado por tantas pessoas que o pressionavam por todos os lados, em todos os sentidos. Até tinha um tempinho para as crianças, coisa que ninguém tinha naquele tempo: as crianças eram consideradas um zero à esquerda. Aliás, até as mulheres eram assim consideradas. Jesus atendia tanto uma como outra. Sempre estava pronto para ouvir, embora tivesse tanto para dizer.

Aliás, ele dizia mais com esses gestos de atenção e atendimento do que com suas palavras, pois estas eram confusas e incompreensíveis para as pessoas da época. Seu bom exemplo era sua melhor e maior pregação. Isso levou o Beato Ir. Carlos de Foucauld a dizer que devemos “Gritar (e não apenas proclamar) o evangelho (não só com as palavras, mas também...)com a vida!”.

Um padre que atenda as pessoas bem atendidas, tenha tempo para todos, mesmo tendo que agendar esse atendimento quando difícil no momento, será sempre um padre benquisto, um padre reverenciado e amado pelos seus paroquianos e tantos quanto o procuraram.

Uma coisa de que peço muito perdão a Deus é de tantas vezes que atendi mal algumas pessoas. Tantas vezes eu as atendi como se eu estivesse prestes a carregar uma cruz pesadíssima, ou que elas fossem atrapalhar todos os meus compromissos. Aliás, algumas vezes esses compromissos não eram assim tão urgentes e podiam esperar.

Uma vez, quando um meu amigo era ainda jovem, atendeu um colega muito alegre, extrovertido, quando voltavam de um baile, após terem levado suas namoradas, que eram vizinhas, ao ponto de ônibus (elas moravam num outro bairro). 

Nessa caminhada de volta para casa (eles também eram vizinhos), o amigo desse meu amigo lhe confidenciou que estava para cometer suicídio (inclusive já estava com um pequeno revólver no bolso), por causa de vários problemas, que lhe enumerou.

 O meu amigo deixou tudo o que tinha que fazer (era professor) e conversou longamente com o rapaz. Este acabou desistindo do suicídio, viu, pela conversa, que havia um modo de recomeçar sua vida e superar as dificuldades. O rapaz morreu vinte anos após essa conversa, daquela doença conhecida popularmente como “bicho de porco na cabeça”.

Há um filme antigo em que um rapaz de uns 16 anos leva nas costas seu irmãozinho aleijado, de uns 9 anos, de uma cidade da Itália para outra, após um bombardeio em que perderam a família. Iam com outras pessoas a um tipo de orfanato ou casa de atendimento aos menores desabrigados.

Depois das peripécias enormes que encontraram, que duraram o filme todo, ao chegarem na cidade e na casa onde iam morar, o padre, vendo o rapaz estafado sob o peso do irmão (que trazia nos ombros por todo o trajeto), lhe disse: “Meu filho, ele não lhe está pesando nos ombros?” O rapaz, sorrindo, respondeu ao padre: “De jeito algum, senhor padre! Ele é meu irmão!”

Muitos católicos abandonam a nossa Igreja e se aliam aos evangélicos simplesmente por causa do atendimento, que acham ser melhor do lado de lá. Eu pergunto: Será que não têm certa razão? Graças a Deus apareceram grupos de atendimento nas paróquias, como os da RCC (embora muitos não gostem muito desse movimento) e a pastoral da acolhida, que procuram atender as pessoas com paciência e sem olhar para o relógio.

Por falar nisso, já percebeu que muitas pessoas sempre estão com pressa quando alguém quer falar com elas? O pior de tudo é quando ficam olhando ao relógio!

Jesus é Rei, sim, mas um Rei que veio para servir e nos ensinar que só entra no Reino de Deus quem está disposto a servir, a ser o último de todos. É como o caso da galinha que cacarejava ao pôr um ovo. Um peixe fêmea ouviu, pôs a cabeça para fora do rio e perguntou a ela o que estava acontecendo. A galinha respondeu: “Ora, eu pus um ovo!”. A “peixa” mergulhou novamente e pensou: “Nossa, já pensou se eu fizesse isso a cada um dos milhares de ovos que ponho?(Infelizmente eu me esqueci onde eu li isto. O autor que me perdoe).

Estar a serviço gratuitamente, sem exigir nada em troca, nem mesmo o agradecimento: eis o caminho dos que querem participar plenamente do Reino de Deus.

Que a festa de Cristo Rei, que comemoramos no último domingo do tempo comum (34º), nos faça lembrar de que Jesus nos deu o exemplo de pobreza, serviço, humildade e santidade. Se tivermos alguma dignidade eclesiástica, ou seja, quem for diácono, padre, bispo ou algum tipo de chefe de comunidade, sejamos imitadores de Jesus-Rei, e simplifiquemos a nossa vida, lembremo-nos sempre que, ao invés de “egrégios senhores”, sejamos “ternos pastores”, como diz um dos pais da Igreja primitiva.    

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