sábado, 19 de maio de 2012

NÃO JULGAR




Muitas comunidades se despedaçam e, quando não morrem, também não vão adiante, por causa da falta de misericórdia entre os seus membros. Jesus disse em Mateus 7,1-2: “ Não julgueis (os outros).para não serdes julgados (por Deus). Pois com o julgamento com que julgais sereis julgados, e com a medida com que medis sereis medidos”. Ou em Lucas 6,36-38: “Sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso. Não julgueis, para não serdes julgados; não condeneis, para não serdes condenados; perdoai e vos será perdoado. Dai, e vos será dado; será derramada no vosso regaço uma boa medida, calcada, sacudida, transbordante, pois com a medida com que medirdes sereis medidos também”.

O julgamento nosso e dos demais pertencem a Deus. Ele, que vê o mais profundo de nosso coração, tem a condição de nos julgar. Nós, porém não enxergamos um palmo diante do nariz: como poderemos julgar?

Por outro lado, diz Tiago 2,13: “A misericórdia triunfa sobre o julgamento” ; ou seja, se formos misericordiosos, seremos também julgados com misericórdia, e os pecados que cometemos por fraqueza serão esquecidos.

Vemos, entretanto, que em nossas comunidades há muito julgamento mútuo. Muitos de nós achamos que os outros são errados e nós, os certos. Sempre certas pessoas estão prontas para julgar, mas nunca se colocam nesse julgamento.

Muitos agem até com boa intenção: vêem alguma coisa errada na comunidade e se acham no direito de santificar e conduzir a comunidade. Mas aí criticam todo mundo, estão sempre apontando os defeitos dos outros, tornam-se pessoas intragáveis, antipáticas e, o pior de tudo, acabam mais atrapalhando que ajudando. Não somos os donos da verdade. Não podemos julgar.

AFINAL, O QUE É JULGAR?

Julgar os outros é colocar, nos atos deles, intenções que nunca poderíamos conhecer com certeza, pelo simples fato de que não somos Deus! Por exemplo, se eu vejo uma pessoa entrar na casa vizinha e matar a família toda. O que seria julgar, nesse caso? Seria dizer que essa pessoa vai para o inferno, e que fez isso por maldade.

O que seria não julgar? Seria dizer que a pessoa fez algo errado, e que não pode continuar solta: o deve ir para um hospício, se estiver louca ou fora de si, ou para a cadeia, se for o caso. Nunca saberemos ao certo o porquê dessa sua atitude.

Veja bem: apontar um erro, em si, não é julgar. Dizer com que intenção foi feito o erro, isso é julgar.

Outro exemplo: se vejo um pobre e logo vou dizendo que ele é um sem-vergonha, vagabundo, estarei julgando! Quem pode saber o verdadeiro motivo pelo qual ele está levando essa vida? Sua vida poderia mudar? Talvez sim, e aí eu poderia conversar com ele e tentar convencê-lo de que deve trabalhar, e ajudá-lo a vencer os problemas que o impedem de trabalhar, isto é misericórdia, e não julgamento.

Assim também se vejo um fulano alcoólatra e eu logo vou dizendo que ele faz isso por senvergonhice, eu o estou julgando. Não sei por que ele bebe. Como posso dizer que ele é sem-vergonha? Serei misericordioso, entretanto, se gentilmente eu lhe disse que ele faz mal em continuar bebendo, e o ajudar a sair desse vício. Muitos são tão viciados que não têm força de lutarem contra o(s) vício(s).

Outro tipo de julgamento que acontece muito é entender mal o que o padre fala no sermão. A pessoa se ofende com o que foi dito, principalmente porque achou que o padre falou para aborrecê-la, para corrigi-la, porque não gosta dela, ou porque alguém está “fazendo a cabeça” dele, ou mesmo que o fez por maldade. Ora, às vezes o padre nem percebera que o que falou poderia ofender a alguém. Pode ser mesmo que ele nem tenha notado que a pessoa estivesse ali.

Quando muito, neste caso, a pessoa ofendida deveria ir conversar pessoalmente com o padre, expor o seu problema e pedir a sua opinião a fim de que não haja mais motivo para ofensas. Não é isso o que ocorre! Geralmente a pessoa ofendida sai falando para todos os amigos e amigas que o padre a ofendeu na missa, e o “dito fica pelo não dito”.

Deixe que Deus decida se o que aquela pessoa está fazendo é por maldade ou não, com boa o má intenção! Simplesmente devemos ser misericordiosos, ajudarmos cristãmente para que as coisas sejam resolvidas de modo cristão, e deixemos o resto por conta de Deus.

Quando é de nossa alçada fazer alguma correção, sejamos fraternos, lembremos sempre à pessoa: “Na certa você não está percebendo o mal que está causando fazendo isso dessa maneira, mas como encarregado desse assunto, tenho por obrigação lembrá-lo (a) de que seria melhor fazer da maneira combinada, etc etc.”.

Diz São Tomás de Aquino:

“Agimos com raiva principalmente contra aqueles que julgamos estar nos prejudicando de livre vontade”. Se tirarmos de nossa mente o pré-julgamento (=preconceito), se acharmos que a pessoa não está fazendo aquilo por maldade, apenas por ignorância ou falta de capacidade, não ficaremos com raiva dela e a perdoaremos facilmente.

Será que nós ficamos com ódio, ou condenamos ao inferno os nossos próprios filhos, quando eles fazem algo de errado? È porque sempre achamos que eles fizeram isto ou aquilo por criancice e nunca por pura maldade! Nós nos propomos, então, a educá-los para que eles nunca mais façam aquilo de maneira errada.
Ora, por que não agirmos dessa mesma maneira na comunidade? Seríamos todos felizes, viveríamos todos em paz e caminharíamos para uma sociedade melhor, mais santa.

“Bem-aventurados os misericordiosos porque alcançarão misericórdia” ( Mt 5,7)
     




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