sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

ECUMENISMO E MACRO-ECUMENISMO


(as imagens foram colocadas por nós, deste blog)




              


ECUMENISMO E MACRO-ECUMENISMO: SENTIDOS DA PRÁTICA OIKOUMENE EM TEMPOS INCERTOS

Claudemiro Godoy do Nascimento[1]
Joana D’arc de Moraes[2]
Klaus Paz de Albuquerque[3]

  
Resumo: Este artigo pretende discutir exatamente este princípio do valorar humano em sua importância de se trabalhar o ecumenismo nas diversas instâncias sociedade civil e política (Gramsci, 1985 e Gohn, 2001). Em um primeiro momento estar-se-á refletindo sobre a cosmogênese dos movimentos ecumênicos e macro-ecumênicos. Posteriormente, buscar-se-á refletir a partir de uma leitura dos escritos joaninos a fim de realizar uma fundamentação teórica tendo como pano de fundo a mensagem do Evangelho. E, por fim, estar-se-á demonstrando o possível de uma experiência macro-ecumênica realizada a partir de duas realidades concretas vivenciada pelas Irmãzinhas e os Irmãozinhos de Jesus que possuem a espiritualidade do Irmão Charles de Foucauld e pelos Irmãos da Comunidade de Taizé.
Palavras-Chaves: ecumenismo, religião, movimentos sociais, libertação, cristianismo.

  


  Os fatos ocorridos no início do séc. XXI, especificamente, aos 11 de Setembro de 2001 em Nova Iorque nos Estados Unidos da América desencadeou dúvidas e reflexões em todo o planeta. A queda do Word Trade Center motivou a revolta dos proclamadores da neo-Pax Romana, ou como diz Dom Pedro Casaldáliga[4], a Pax Americana que se intitula a grande defensora dos direitos humanos e da democracia mundial. Justificados por este acontecimento (ao qual considera-se um ato de desumanidade) os promotores da paz mundial declaram a guerra (também um ato desumano) no Afeganistão (2001) e no Iraque (2003) a fim de instaurar dias melhores e redimir aquelas nações e, conseqüentemente, seus povos com suas culturas e etnias diversificadas.

              A idéia de redenção está bem presente nos discursos proferidos pelo presidente W. George Busch motivando a todos os cidadãos norte-americanos, bem como, todas as nações “amigas”[5] a lutarem contra toda e qualquer forma de terrorismo. A conclamação inicia-se invocando o nome de Deus e termina dizendo Deus Salve a América. Há uma conotação não-direta do povo para lutarem em nome do Deus Cristão contra o Mal, os infiéis e encarnados na cultura islâmica, pois os muçulmanos foram os primeiros acusados de realizarem o atendo do dia 11 de Setembro. Assim, fica evidente que o Bem pertence ao mundo Ocidental e o Mal está presente no mundo Oriental, especificamente, no mundo muçulmano. Os norte-americanos desenterraram a velha idéia de Guerra Santa que remota à época das Cruzadas Medievais onde os cristãos queriam salvar, “redimir” o mundo, destruindo os infiéis mouros-muçulmanos. Mas salvar de que? A idéia de cristandade permeava todo o universo de representações simbólicas existentes na Idade Média, por isso, era preciso salvar o mundo do Mal, do não-cristão, pois estes se tornaram uma ameaça à fé da Igreja e dos bens materiais que a mesma possuía

    Os conflitos atuais imbuídos de apelos religiosos caracterizam o mesmo perfil medieval, apenas com uma pitada de transformações nos arsenais de guerra. Ao invés da espada e do escudo, típicas armas medievais, utilizam-se agora mísseis teleguiados por computadores a milhares de Km de distância, com aviões sub-atômicos e com milhares de tanques com um poder bélico de fogo não imaginado. E o mais sensacional disto: tudo supervisionado por satélites espaciais[6].

              Estes conflitos atuais encharcados de sentimentos de vingança e utilizando-se de conceitos religiosos fundamentalistas trazem uma grande preocupação para as religiões, as pessoas de boa fé e, em especial, os movimentos ecumênicos e macro-ecumênicos que acreditam e propagam que é possível uma boa e saudável convivência numa mesma morada, pois todos pertencemos à mesma casa universal, todos somos parte do mesmo ethos que compreende toda a dimensão do humano (Boff, 1999 e 2003). Vários grupos religiosos se pronunciaram contra a Guerra e fizeram ações concretas através de passeatas, vigílias, fóruns de debates e manifestações em conjunto com outros movimentos como o Movimento antiglobalização (Gohn, 1994). Também, estes movimentos ecumênicos e macro-ecumênicos se pronunciaram em relação à utilização do nome de Deus por parte de Busch a fim de justificar a guerra que se torna sagrada para o povo norte-americano ferido em sua honra. Na verdade, a critica não foi somente ao fato do presidente Busch utilizar o nome de Deus para promover a Guerra, mas também, para todos aqueles que se utilizam do nome de Deus com interesses sui generis como os próprios grupos islâmicos, entre eles, o Taleban e a Al Quaeda.
          
    Interpelados por este contexto político-religioso faz-se necessário discutir os diálogos inter-religiosos a fim de incentivar a importância do ecumenismo e do macro-ecumenismo na sociedade atual que vive momentos de incertezas. Entende-se aqui ecumenismo como meio de bons relacionamentos e da propagação da paz, da justiça, da igualdade entre os povos e, na perspectiva do Fórum Social Mundial, da possibilidade questionadora – Um outro mundo é possível? Na verdade, o Movimento Ecumênico possui várias experiências que demonstram que é possível sim viver esta utopia de uma sociedade plural, diferente, que respeite o princípio da alteridade, ou seja, o outro como expressão maior da Pessoa Humana (Mounier, 1976).

Este artigo pretende discutir exatamente este princípio do valorar humano em sua importância de se trabalhar o ecumenismo nas diversas instâncias sociedade civil e política (Gramsci, 1985 e Gohn, 2001). Em um primeiro momento estar-se-á refletindo sobre a cosmogênese dos movimentos ecumênicos e macro-ecumênicos. Posteriormente, buscar-se-á refletir a partir de uma leitura dos escritos joaninos a fim de realizar uma fundamentação teórica tendo como pano de fundo a mensagem do Evangelho. E, por fim, estar-se-á demonstrando o possível de uma experiência macro-ecumênica realizada a partir de duas realidades concretas vivenciada pelas Irmãzinhas e os Irmãozinhos de Jesus que possuem a espiritualidade do Irmão Charles de Foucauld e pelos Irmãos da Comunidade de Taizé.
  
1.      O ecumenismo e o macro-ecumenismo: Origens e Princípios

              Neste princípio torna-se necessário pensar de forma concreta a significação de uma primeira definição de ecumenismo. Assim, ecumenismo é, antes de tudo, pensar e agir de maneira coerente a fim de que a fé venha ultrapassar todas as barreiras dos preconceitos, das violências, do desamor, das divisões entre os irmãos e irmãs, dos racismos, enfim, das denominações que se dá a essa fé ou crença. Assim, ecumenismo vem do grego (OIKÓS = que significa casa) e a palavra menismo que também é proveniente do grego (MENEN = que significa morar, habitar, conviver). Algumas palavras muito comuns ao nosso vocabulário possuem a mesma raiz, como por exemplo: ecologia, ecossistema, economia e ética. Por isso, significa etimologicamente morar na casa, habitar a casa e convivência na casa, comum a todos os homens e mulheres da Terra (a grande morada humana). Ela não possui nenhum sentido ou conotação religiosa em sua origem, pois era utilizada pelos gregos para demonstrar exatamente a relação do Homem (antropos) com a Casa Comum à qual todos habitamos (Oikoumene).




MARTINHO LUTERO
              A divisão ocorrida no século XV entre protestantes e católicos trouxe para a humanidade dias melhores (mais pessoas podendo ler e escrever e com direito de possuir a Bíblia em língua nacional, chamada de vernácula) e, também, tristes dias (divisões, guerras e perseguições). Somente cinco séculos mais tarde é que se pode observar uma ação conjunta entre diversas Igrejas cristãs, no esforço de acabar com as velhas diferenças e agressões mútuas. Igrejas diferentes sentando para dialogar, acolhendo membros de outras denominações, assumindo posturas e ações conjuntas em benefício da humanidade, principalmente, dos mais necessitados. Surge, assim, no século XX o movimento ecumênico.

   O Movimento Ecumênico tem suas raízes fundadas dentro dos movimentos missionários protestantes do século XIX e dentro dos movimentos sociais[7] que lutavam por melhorias de vida. Diversas entidades evangélicas ecumênicas começam a surgir no século XIX com objetivos missionários para evangelizações de povos não-cristãos, bem como, contra a corrupção do cristianismo (os cristãos não estão mais sendo fiéis aos princípios do evangelho), pois não possuem uma vida simples, piedosa e com ênfase na santificação. Surge em 1847 a Aliança Evangélica Mundial e, em 1878, a Associação Cristã de Moços, ambas pregavam a unidade. Surge, também, anos mais tarde a Federação Universal das Associações Cristãs de Estudantes, fundada por John Mott, juntando 13.000 jovens de diversas denominações para missões na Índia. Devido às dificuldades encontradas nas missões de evangelização aos povos não-cristãos, aparecem preocupações que levam os evangélicos de várias igrejas a se reunirem em conferências globais sobre as missões, tendo a sua primeira conferência realizada em 1810, na cidade do Cabo (África do Sul), continente africano, com meia dúzia de entidades protestantes. A partir de então, diversas denominações resolveram continuar se reunindo para estudar a resistência à mensagem cristã pregada pelos evangélicos de diferentes igrejas. O resultado desses estudos culminou na fundação de diversas entidades ecumênicas, já citadas acima. Porém, a problemática continuou. Não havia unidade na missão, ou seja, estavam falando “línguas diferentes”.

              Um século após, em Edinburg, na Escócia, foi realizada a primeira Conferência Missionária Universal (1910), sendo a maioria dos participantes, delegados oficiais de suas missões e igrejas, que trabalhavam entre os povos não cristianizados. Essa Conferência é conhecida como o marco do movimento ecumênico moderno. Dela surgiram: o Conselho Internacional de Missões, a Conferência Vida e Atividade (tratando de problemas sociais) e a Conferência de Fé e Ordem (tratando das diferenças doutrinárias entre os cristãos). Daí em diante iniciou-se a preparação da criação da proposta de fundir os Movimentos Fé e Ordem com a Vida e Ação. Nasceria assim, o Conselho Mundial de Igrejas (CMI), que devido a Segunda Guerra Mundial, só foi possível constituí-lo em 1948.  O CMI hoje tem 324 igrejas filiadas. Sendo que na sua fundação reuniu 147 igrejas evangélicas.

              O Conselho Mundial de Igrejas se define como uma “comunhão de igrejas que aceitam Jesus Cristo como Deus e Salvador, segundo as escrituras, e por isso buscam cumprir em conjunto sua vocação cristã para a glória de Deus Pai, Filho e Espírito Santo”  (CONIC, 2004: www.conic.org.br). Agrega muitas outras agências ecumênicas espalhadas por todo mundo, como por exemplo, a CLAI (Conselho Latino Americano de Igrejas), CONIC (Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil) e o CEBI (Centro de Estudos Bíblicos).
              O movimento ecumênico no Brasil surge somente a partir do século XX, dividindo-se em três fases distintas: o primeiro foi um ecumenismo interprotestante (1903-1960); o segundo um ecumenismo bilateral, a partir dos católicos e anglicanos (1960-1982) e, por último, um ecumenismo que poder-se-á afirmar que inicia-se com a fundação do CONIC (1982).

              O ecumenismo interprotestante se caracterizou por três elementos fundamentais: herança comum, tanto das orientações dos seus fundadores como também da acentuação no caráter da conversão pessoal; na unificação dos projetos de evangelização; e, o terceiro, uma forte oposição a Igreja Católica Romana.

              A segunda fase do movimento ecumênico no Brasil dar-se-á com as iniciativas da Igreja Católica e da Igreja Episcopal Anglicana. Na segunda metade dos anos 50, membros da hierarquia Católica começaram a se preocupar e a realizar encontros com diferentes grupos de tradições cristãs que tinham abertura para o diálogo ecumênico. Estes encontros se realizaram somente entre as Igrejas ditas históricas, localizadas na região sul do país.  Por sua vez, em 1966, a Igreja Episcopal Anglicana no Brasil institui a Comissão de Ecumenismo, viabilizando contatos bilaterais com as demais igrejas cristãs evangélicas. Já em 1968 realiza encontros com a Igreja Metodista, para estudos teológicos a fim de verificar as semelhanças e diferenças entre as duas.


             A CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) antes do Concílio acompanhava à distância o movimento ecumênico brasileiro. Porém, após o término do Concílio Ecumênico Vaticano II[8] (1965) ela começou a pensar o ecumenismo de forma mais articulada e explícita com os seguintes elementos: a formação da consciência ecumênica, o desenvolvimento de relações institucionais com outras confissões cristãs e a publicação de orientações teológico-pastorais sobre ecumenismo (Wolff, 2002).

O Concílio Vaticano II foi sem dúvida, um marco para o ecumenismo católico, tanto do Brasil como para o restante do mundo.  Conclamava a Igreja para uma tomada de consciência ecumênica. O próprio Concílio se auto proclamou como ecumênico[9]. Neste intuito foram convidados a participar, como ouvintes, cristãos não-católicos. Foi produzido um documento conciliar, Unitatis Redintegratio, que reconhece o movimento ecumênico como graça do Espírito Santo (UR 2-4) e trata do ecumenismo prático, principalmente o espiritual (UR 5-12), e também em compreender e melhorar os relacionamentos entre as Igrejas e as Comunidades Eclesiais Separadas da Sé Apostólica Romana, tratando de forma separada as igrejas orientais e as ocidentais (UR 19-23).  Embasados nos documentos conciliares do Vaticano II, o Papa João Paulo II, em preparação para a festa do Grande Jubileu cristão de 2000, escreve a Encíclica: Ut Unum Sint (1996) (Para que todos sejam um), novamente conclamando toda a Igreja a dar uma especial atenção ao diálogo religioso a fim de que o ecumenismo se efetive entre os cristãos. E fala dos mártires de diversas igrejas, como exemplo a ser seguido. Diz o Papa: “Isto não poderá deixar de ter uma dimensão e uma eloqüência ecumênica. O ecumenismo dos santos, dos mártires, é talvez o mais persuasivo. A communio sanctorum, fala com voz mais alta que os fatores de divisão” (CNBB, 2000: 5-6).


             O CONIC foi a expressão mais importante da história do ecumenismo no Brasil. Produto da caminhada ecumênica mundial e especificamente brasileira. Fundado no contexto da Teologia da Libertação e das preocupações pela a melhoria e a defesa da vida humana, independente dos credos e igrejas. No ano 2000, na festa jubilar, o CONIC realizou a primeira Campanha da Fraternidade[10] (CONIC-CNBB, 1999) em suas Igrejas membros, e no ano 2005 promoverá novamente (com o tema Paz). Uma outra atividade que há anos vem se realizando é a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos. Ultimamente vem crescendo a participação a cada ano e tornando-se um momento forte de encontros e estudos a respeito do diálogo inter-religioso e ecumênico.

              O termo ecumenismo foi apropriado por determinados grupos participantes da casa cristã, mesmo de diferentes igrejas, tendo como objetivo diminuir as seculares distâncias, as divisões e as tenções entre as históricas Igrejas Cristãs. Mais especificamente foi utilizando-se, a partir da criação do Conselho Mundial de Igreja.

              A discussão ecumênica avançou bastante a ponto de ultrapassar as barreiras da “casa cristã”, para chegar a outras expressões de fé, a grupos que invocam o Outro. Esse avanço não é menos tenso que o diálogo no seio dos seguidores de Cristo, ao contrário, as resistências são bastantes maiores, visto que, essas expressões e grupos religiosos são “desconhecidos”, ou seja, não são da linhagem cristã. Para designar esse diálogo entre as religiões usa-se bastante a expressão macroecumenismo ou diálogo inter-religioso. Esta palavra foi cunhada publicamente nos encontros da APD (Assembléia do Povo de Deus) (CASALDÁLIGA, Pedro. In: TEIXEIRA, Faustino, 1997: 33). 


Há quem prefere usar também a palavra ecumenismo, dando um “novo” conceito, para relacionar ao diálogo das diferentes religiões, tendo como princípio a própria raiz grega da palavra: habitantes da mesma casa, aqui entendendo como a casa-mundo-planeta-universo-cosmos-infinito. Somos todos filhos e filhas do Ser Sagrado, criador de todas as coisas, portanto, irmãos e irmãs pela humanidade e com a humanidade mátria e pátria, mas, diferentes ao falar e se expressar para se relacionar com Ele. No Brasil, as idéias macroecumênicas encontram terreno fecundo, devido à natureza sincrética do catolicismo brasileiro, que de certa forma, influenciou a sociedade brasileira e a mentalidade religiosa do país. Segundo Dom Pedro Casaldáliga, os traços mais importantes do macroecumenismo são: a maturidade e a liberdade da afirmação da identidade própria, a escuta ao Deus da Vida que continua se revelando e a paixão por seu projeto de libertação plena, e a abertura fraterna-irmã a todas as pessoas, culturas, religiões e ao diálogo sincero em pé de igualdade (CASALDÁLIGA, Pedro. In: TEIXEIRA, Faustino, 1997: 38).

              Apesar de todas as dificuldades e problemáticas a serem ainda resolvidas, encontra-se exemplos concretos da vivência ecumênica e macroecumênica por todo o mundo. Escolhe-se aqui, portanto, duas experiências para validar toda a discussão do diálogo entre os cristãos e entre as religiões, que serão apresentadas mais adiante. A primeira é referente à vivência das Irmãzinhas e Irmãozinhos de Foucauld e, em um segundo momento, o caso da Comunidade de Taizé.

Discípulos de Jesus: permanecei unidos

              Neste século XXI, os cristãos são convidados a permanecerem unidos. Como já foi dito, é causa de escândalo para a sociedade a divisão entre os cristãos em várias denominações, cada qual procurando realizar uma espécie de mercado do sagrado onde se vende o Jesus católico, o Jesus da Assembléia, o Jesus Metodista, enfim, todos são interpelados pela força do Evangelho a assumir a dimensão da aceitabilidade do outro como o meu irmão e irmã de fé, mesmo sabendo que nossas diferenças que hoje são causas de separação, amanhã (com a conversão do espírito = ruah) deverão ser motivos de alegria, pois o louvor a Deus, “Verbo que se fez carne, e habitou entre nós; e nós vimos a sua glória, glória que ele tem junto ao Pai como Filho único, cheio de graça e de verdade” (Jo. 1, 14). Pela fé dos cristãos, Deus vem morar com a gente, assume a condição de fraqueza e tentações humanas (Mt. 4, 1-11; Mc. 1, 12-13; Lc. 4, 1-13) e a imortalidade de todos. É o Verbo de Deus que se encarna entre os homens, em uma cultura, com suas formas variadas de vida, ou seja, até mesmo o Verbo já nos ensina ao vir ao mundo, pois cumpre fielmente o mandato que diz: “(...) tira as sandálias dos pés porque o lugar em que estás é uma terra santa” (Ex. 3, 5).

              Como cristãos todos são convidados a anunciar o amor do Pai, um amor que não exclui ninguém. Quem vai acreditar nesse anúncio se produzirmos disputas internas e não nos unirmos para construir um mundo mais justo, fraterno e de paz? Quem vai acreditar no Pai e no nosso amor para com Deus, se formos indiferentes ao sofrimento dos irmãos? A história das nossas relações com os que sofrem e os caídos, é o retrato da sinceridade das nossas relações com Deus. E isso não é novidade. No começo do primeiro milênio, a Palavra de Deus já nos advertia: "Aquele que não ama seu irmão, a quem vê, é incapaz de amar a Deus, a quem não vê" (1Jo 4, 20).

              O diálogo e a cooperação mútua das Igrejas Cristãs são um sinal luminoso para o mundo que não crê e para todos os que acham que a competição e a violência terão sempre a última palavra. Ecumenismo não é uma política de boa vizinhança entre Igrejas, mas o testemunho indispensável para sermos fiéis ao mandato de Jesus: “Nisto todos saberão que sois meus discípulos se vos amardes uns aos outros como eu vos amei” (Jo 13, 34-35), e para termos credibilidade ao anunciar a salvação. Igrejas se comportando como irmãs e aliadas, em vez de se apresentarem como concorrentes, são um sinal poderoso da gestação do novo, da força da graça redentora, da possibilidade de reescrever a história na direção do Reino de Deus.

              Em Jo. 17 Jesus aponta os rumos para seus discípulos e lhes dá um ensinamento para que permaneçam unidos na fé e na oração. A chamada oração sacerdotal que Jesus faz antes de assumir a hora crucial de sua vida representa um alerta para os cristãos de hoje. Ele ao se glorificar ao Pai, dá a vida eterna a todos nós, cristãos ou não-cristãos. Significa que a mensagem da salvação é para todos. Pela nossa fé somos chamados a vivenciar os mandamentos de Jesus o que não nos dá o direito de monopólio de Deus que pertence a todos os Povos da Terra que o louvam conforme suas culturas, suas simbologias e suas linguagens.

              Todos são interpelados a conhecer o projeto de Jesus que é o projeto do Pai. Jesus não aponta exigências doutrinais e, muito menos, dogmáticas para se viver o Evangelho. Assim, compreende-se que a mensagem dos escritos joaninos abre-se para a dimensão universal da proposta salvadora. Com isso, todos, independemente de raça, etnia ou credo podem seguir Jesus. Não se pode esquecer que no Congresso latino-americano da Juventude realizado na Nicarágua na década de 80 do século XX, uma jovem indígena entregou a Bíblia ao Papa João Paulo II anunciando que a mensagem de vida contida nas Sagradas Escrituras serviram somente para causar guerras, mortes, desesperanças... Assim, seu povo a devolvia, pois já viviam no cotidiano a proposta do Evangelho.








              Jesus se manifesta no amor a todos os homens da terra. Por isso, os discípulos Deles são chamados a realizar o mesmo. O amor aqui significa compromisso com o projeto do Reino e os cristãos são intimados a assumir este engajamento. Disse Jesus: “Agora reconheceram que tudo quanto me deste vem de ti, porque as palavras que me deste eu as dei a eles, e eles as acolheram e reconheceram verdadeiramente que saí de junto de ti e creram que me enviaste” (Jo. 17, 8).

              A prece que Jesus faz ao Pai causa muita emoção, pois pede e roga ao Pai que faça os seus permanecerem unidos na fé. Ele roga por todos, pois toda humanidade permanece no mundo. Ele pede ao Pai que os guarde. Guardar significa evangelicamente cuidar, e só cuida quem ama. Guardar “em teu nome que me deste, para que sejam um com nós” (Jo. 17, 11). Jesus repete duas vezes que os que querem seguir o projeto não são do mundo, pois estão marcados a lutar pela vida e dignidade, assim como Ele não é do mundo.

              O amor exige santificação de vida e conversão de espírito para que a Verdade possa ser anunciada. O Pai enviou seu Filho Jesus para dar a Boa Nova ao mundo e todos são continuadores deste projeto, pois, pelo Batismo e pela fé em Cristo Jesus são também enviados a anunciar a mensagem de vida contida no Evangelho e a denunciar todo sistema de morte. Os crentes são todos aqueles que praticam a Verdade que é Jesus na vida, no cotidiano. Esta Verdade é, antes de tudo, amor pleno. E só tem amor aquele que dá a vida pelo amor sempre no seguimento do projeto de Jesus que afirma: “Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância” (Jo. 10, 10).


   Por três vezes Jesus pede ao Pai para que seus discípulos permaneçam unidos (Jo. 17 11.21-23). A união tem aqui um significado especial. Não significa de forma alguma uniformidade ou adestramento a um pensamento único, mas o ato de aceitar a dimensão do outro como meu irmão e que tem a sua fé diferente da minha o que não significa que ele esteja errado. Dessa forma, os cristãos são convidados por Jesus: “(...) para que todos sejam um como nós. (...) a fim de que todos sejam um. Eu lhes dei a glória que me deste para que sejam um, como nós somos um: (...) para que sejam perfeitos na unidade e para que o mundo reconheça que me enviaste e os amaste como amaste a mim”.

              Por isso, sonha-se que se possa rezar juntos a oração que Jesus de Nazaré nos ensina hoje e sempre, na esperança de conseguir com que os cristãos dêem o testemunho do Reino já presente. Assim, diz o final do Texto-Base da Campanha da Fraternidade Ecumênica (Cf. CONIC-CNBB, 1999) de 2000, fazendo com que nossos sonhos num mundo de justiça e dignidade se fortaleçam a partir das ações concretas.

                   Para todos o Pai, o pão e a paz
Os cristãos aprenderam de seu Mestre a oração do Pai Nosso. Não é só uma prece; é o próprio programa do Reino que Jesus nos ensinou a pedir. Pedindo nos comprometemos com esse programa em nossa vida e afirmamos a confiança na graça que torna possível que venha a nós o Reino do Senhor.
                   Pai nosso que estás nos céus
Ao dizermos Pai Nosso já estamos afirmando a dignidade de todos, sem exclusão: ninguém, qualquer que seja a sua situação deixa de ser filho (a) do Pai de todos. O outro não é um desconhecido que podemos ignorar, um estorvo que se deve descartar, nem um competidor contra o qual tenho que me prevenir. É um irmão, uma irmã, para amar, defender e valorizar, como se espera que aconteça em qualquer família digna desse nome.
                   Santificado seja o teu nome
A santificação do sagrado Nome de Deus-Pai está ligada à defesa da dignidade humana e ao diálogo cristão. Desprezamos o Pai quando permitimos o descarte daqueles (as) que Ele ama. Desqualificamos nosso discurso sobre a glória do Pai quando nos apresentamos divididos diante do mundo que não crê.
                   Venha o teu Reino. Seja feita a tua vontade.
O Reino de Deus e vontade do Pai passam por relações mais do que justas: fraternas, solidárias generosas e, portanto, construtoras de paz.
                   Dá-nos hoje o pão nosso de cada dia
O pão nosso de cada dia não pode faltar, em nenhuma casa. Ele é o sinal concreto que mostra se estamos ou não sendo fiéis ao projeto do Pai. Não é o pão do exagero, da acumulação; é o pão das necessidades humanas atendidas com digna simplicidade, bem repartido para que o supérfluo de uns não seja a carência de outros.
                   Perdoa as nossas dívidas assim como nós nos perdoaremos
O perdão das dívidas deve estar presente na vida pessoal, para que ressentimentos não envenenem a paz nas casas e nas comunidades. Deve estar presente também entre as Igrejas que precisam curar as feridas de séculos de separação e enfrentamento. Mas tem que estar presente também no resgate das dívidas sociais que esmagam os filhos e filhas de Deus.
                   Fortalece-nos na tentação; livra-nos do mal
Idéias sedutoras e sistemas que não reconhecem o valor da pessoa estão aí prontos para serem usados como desculpa para deixar tudo como está. Jesus disse que as portas do inferno não prevaleceriam sobre a sua Igreja. Temos o direito e o dever de pedir ao Senhor da História que nos ajude a construir um novo milênio parecido com a Nova Jerusalém, onde o mal vai sendo vencido e as lágrimas vão dando lugar à alegria.
                   Teu é o reino, o poder  e a glória
Não sonhamos utopias vazias. O nosso sonho vem assinado por Deus, selado com o sangue do Cordeiro, aquele que vence o mal e a morte e que reinará para sempre.

          
              É verdade que a grande virada da Igreja Católica em relação ao ecumenismo aconteceu após o Concílio Vaticano II. No entanto, havia movimentos ecumênicos não "oficiais" e não hierárquicos dentro da própria Igreja Católica que, de certa forma, contribuíram para se falar de ecumenismo no Concílio, a partir de algo concreto, vivido. Eram as fraternidades de Foucauld e a Comunidade de Taizé. Vamos primeiro abordar o ecumenismo Macro das irmãzinhas e dos irmãozinhos de Foucauld. Em seguida, ver-se-á o Micro de Taizé.
             
3.1  O seguimento do projeto do Reino na perspectiva das fraternidades de Foucauld

              O movimento ecumênico hoje suscita um alargamento no seu conceito, incitando a uma abertura maior para o diálogo. Dialogar com aqueles que também não fazem parte da oikos cristã. Essa é apenas uma resposta para os dias atuais, de intensa aproximação dos povos através dos rápidos e poderosos meios de comunicação e transporte?  O Macro-ecumenismo é uma necessidade apenas de hoje? É necessário passar pelo ecumenismo cristão para depois para o macro ecumenismo?
            As fraternidades de Foucauld fizeram um caminho "às avessas"; começaram sua "missão" ecumênica do macro (global) para o micro (local). Desde suas fundações, as comunidades se inseriram no mundo não cristão, especificamente, na convivência com os povos islâmicos. Essa intuição advém do próprio inspirador e místico, Irmão Charles de Foucauld, que iniciou a espiritualidade de Nazaré, deixando escritos e um legado, no qual seus inspirados deram continuidade e a propagaram por todo o mundo. 

              Charles de Foucauld nasceu em Estrasburgo, na França, no ano de 1859. Ainda criança, ficou órfão de pai e mãe, sendo criado com o avô. Quando jovem, torna-se herdeiro de uma grande fortuna e vai servir o exército na Argélia, sendo repreendido várias vezes por indisciplina e má conduta. Em 1882 sai do exército e planeja uma viagem de exploração "secreta" ao Marrocos. De junho de 1883 a maio de 1884 permanece clandestinamente no Marrocos, estudando a geografia daquele país. Ao voltar para Paris, ganha um importante prêmio da Sociedade Geográfica Francesa, aumentando seu prestígio. Nesse mesmo período é ajudado por sua prima a reencontrar o caminho do cristianismo e acontece sua conversão. Vai em peregrinação à Terra Santa em 1889 e ao voltar entra na Ordem Trapista, no Convento Nossa Senhora das Neves. Passa sete anos na Ordem, abandonando-a em seguida, para viver mais radicalmente seu ideal de pobreza e aproximação de Jesus através da convivência com os mais pobres. É ordenado padre e vai para o deserto do Saara, morar junto com o povo islâmico, no oásis de Bani-Abbés, Argélia.

              O "ecumenismo" de Foucauld, com as pessoas de orientação muçulmana se aprofunda com o passar dos anos de convivência. Não faz proselitismo e sua missão é de imitar Jesus no escondido de Nazaré, no silêncio do deserto e na contemplação. Seu apostolado é de ser "um irmão universal" de todas as pessoas, levar Jesus Cristo pela vida. Eis o que escreve sobre o como viver esse apostolado cristão:

Como ser Apóstolo?
Pela bondade e pela ternura, pelo amor fraterno, pelo exemplo de virtude, pela humildade e doçura sempre e tão cristãs.
Com alguns, sem lhes dizer nunca uma palavra sobre Deus ou sobre religião, sendo bom como Deus é bom, sendo irmão no afeto e nas preces.
Com outros, falar de Deus na medida em que podem assimilar.
Sobretudo, ver em cada homem um irmão (...).
Ver em cada homem um filho de Deus, um homem resgatado pelo sangue de Jesus (...).
Afastar de nós o espírito conquistador (...).
Como é grande a distância entre a maneira de fazer e de falar de Jesus e o espírito conquistador daqueles que não são cristãos ou são maus cristãos e só vêem inimigos a serem combatidos. (LEPETIT, 1982: 153-154).

              Foucauld abre sua casa para acolher os pobres e os viajantes. Cria fortes amizades com vizinhos e moradores da localidade. Num dado momento de sua vida no deserto, ficou muito doente, e como morava só, teve somente as amizades muçulmanas para o socorrer. Foram seus vizinhos e amigos que cuidaram dele até sua recuperação, salvando sua vida.  Com uma forte paixão por aquele povo, foi morar mais adentro do deserto, com os Tuaregues em Tamanrasset, sul da Argélia. Neste momento de sua vida, de tanta identificação com aqueles pobres, escreve o primeiro dicionário Tuaregue-francês. É a prova do amor e identificação com aquele povo. Em plena Primeira Guerra, Foucauld é assassinado no dia primeiro de dezembro do ano de 1916. Morreu sem deixar nenhum discípulo ou discípula, como queria. Deixou seu legado espiritual através de vários escritos. A partir de 1933, dezessete anos após sua morte, as fraternidades que tanto desejou em vida, começam a ser fundadas. As palavras de Jesus, o qual chamava de Bem-amado, se cumpriu: "Se o grão de trigo não morre, fica só, mas se morre produz muitos frutos". 

              As primeiras comunidades que surgiram para viver a espiritualidade de Nazaré, nos passos do Irmão Carlos[11], foram as Irmãzinhas do Sagrado Coração, os Irmãozinhos de Jesus e as Irmãzinhas de Jesus. Depois, não parou de surgir grupos e mais grupos, por todo o mundo, que alimentados pela espiritualidade de Foucauld desejam ser "fermento na massa", ser irmãos e irmãs universais.

              Desde as primeiras Fraternidades[12], a ida ao encontro do "outro" foi envolvida de sentimentos macro-ecumênicos: o amor, o respeito, o ouvir e o aprender com os não cristãos. As Irmãzinhas e os Irmãozinhos de Jesus iniciaram sua missão em território não cristão, na terra onde Foucauld tinha vivido seu apostolado, ou seja, na Argélia. Portanto, um forte motivo para o macro ecumenismo. Sendo que, as irmãzinhas de Jesus surgiram para se dedicarem às populações muçulmanas, tendo suas primeiras fraternidades em territórios islâmicos. Essas fraternidades foram enviadas aos quatro quantos do mundo. E nessa expansão das fraternidades, René Voillaume, fundador dos Irmãozinhos de Jesus, por ocasião da instalação de uns irmãozinhos entre a tribo dos Uldemês, em 1951, no norte do Camarões, África, escreveu para seus irmãozinhos:

 Por mais que pareçam longe de nós e tão difíceis de compreender em certos dias, não devemos nunca cessar de amá-los com infinito respeito (...) Todo o esforço de vocês, deve visar compreendê-los, amá-los e respeitá-los, como o faria Jesus, se vivesse entre eles (...) não os julguem, jamais zombem deles, jamais sejam irônicos a seu respeito! Jesus não o faria. (VOILLAUME, 1967: 50-51).

              As Irmãzinhas de Jesus a partir de 1946 deixaram a exclusividade para os muçulmanos e foram também habitar e partilhar a vida dos mais pobres de todo o mundo, dos mais esquecidos, àqueles que ninguém quer ir. A Irmãzinha Madalena, fundadora das Irmãzinhas de Jesus dizia: "Procurem no mapa mundi e escolham viver entre os pobres e os mais abandonados, entre os nômades ou outras minorias ignoradas e desprezadas, inatingidas por outras formas de apostolados".[13] Quando envia suas irmãzinhas às diversas partes do mundo, as instruem sobre a abertura para todos, independente da crença e religião:




IRMÃZINHA MADALENA DE JESUS
Gostaria que vocês acreditassem que pode existir uma amizade verdadeira, um afeto profundo entre as pessoas que não são da mesma religião, nem da mesma raça, nem do mesmo ambiente. É preciso que seu amor cresça e se aprofunde e se matize de delicadeza. O amor generoso se encontra facilmente, mas o amor delicado e respeitoso por todos é raro.[14]

              Surgiram as primeiras freiras operárias, as primeiras freiras ciganas, as primeiras freiras presidiárias, as primeiras freiras nômades das tendas, as primeiras freiras de circo... Freiras assumindo a vida dos pobres e dos abandonados do século XX. Missionárias e contemplativas no cotidiano da vida. Mas, seu apostolado é o do amor, da amizade gratuita, a simples presença, no se fazer igual a seus vizinhos. Disse Irmãzinha Madalena: "(...) faça-se toda a todos: árabe no meio dos árabes, nômades no meio dos nômades, operária no meio dos operários, mas antes de tudo, humana no meio dos humanos. (...) que seja uma só coisa com todos"[15].

IRMÃZINHA GENOVEVA E OS TAPIRAPÉS
              As Fraternidades de Foucauld estão no Brasil desde 1952, com a chegada das Irmãzinhas de Jesus, para fundar a primeira fraternidade na América Latina. Em 1985, Irmãzinha Genoveva, uma das primeiras que vieram, e continua até hoje na aldeia Tapirapé, conta como foi esse início:

Então, vocês estão vendo aqui, todas essas casas, que tem umas... vinte casas, agora, nessa aldeia. Que são uns duzentos e dez tapirapé hoje. E quando nós chegamos aqui, eram somente cinqüenta.

Então nós viemos aqui, já faz trinta e dois anos. E quando foi para escolher uma fraternidade aqui no Brasil, foi escolhido justamente os índios, por ser os mais... que não interessava muita gente. E os tapirapé foi escolhido por ser justamente um número resumido e eles estavam em fase de extinção. Foi a razão pela qual viemos aqui. Sem outra intenção, à não ser viver com eles. E valorizar, assumir a vida deles, pra que eles acreditem que ela tem valor. Isso que nós fizemos.
É claro que naquele tempo estávamos muito isoladas. A Igreja num... era uma coisa nova, num se entendia, mas como éramos muito isoladas, ninguém nos atrapalhou, primeiro.[16]

              A tribo cresceu, multiplicou-se. Hoje já são duas aldeias com mais de 500 tapirapé. E as Irmãzinhas de Jesus continuam morando lá.

              Essa forma missionária entres os índios do Brasil, sem intenção de fazê-los crentes em Jesus, de presenteá-los com Bíblias ou contar-lhes as "maravilhas do mundo civilizado", ajudou a inspirar e fazer surgir o CIMI - Conselho Indigenista Missionário (em 1972), uma organização da CNBB - Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, na missão da promoção e dos direitos dos povos indígenas, sem fazê-los católicos apostólicos romanos e nem cristãos, mas que fortaleçam sua cultura e suas crenças. 
              Sem nenhuma presunção de converter "o mundo pra Jesus", as fraternidades de Foucauld estão em diversos países de todos os continentes em nome de Jesus, do Deus-Amor, na missão do amor incondicional. Talvez as palavras da Irmãzinha Madalena possa resumir bem essa forma ecumênica de viver a fé na espiritualidade Macro Ecumênica:

Permaneçamos as pequenas irmãs de todos, que possamos responder lealmente aqueles que nos colocam a questão: 'É porque você quer me converter que procura a minha amizade? - Não, eu o amo porque você é meu irmão em Deus'. É nesse sentido que eu digo, algumas vezes, que devemos ir entre os povos com uma amizade 'gratuita' que ama sem procurar um retorno, sem calcular os resultados obtidos. Por isso, ficamos desconcertadas quando nos perguntam: 'Quais são os resultados de seu apostolado?  Que influência vocês tem sobre aqueles que as rodeiam?'. É uma linguagem que não corresponde a nada para nós. Nossa vocação é fazer amar o Cristo através de nós, sem procurar conhecer os resultados. Deus os conta, Deus os vê.[17]

              O ecumenismo foi algo constante nas fraternidades. As Irmãzinhas de Jesus, por exemplo, deram passos muito ousados e proféticos: desde a década de 70, a congregação começou a ter irmãzinhas que não eram católicas. Em 1981, no quinto capítulo geral da congregação, um problema surgiu a respeito das irmãzinhas não católicas, a Cúria Romana atesta a inviabilidade de outras cristãs, que não sejam católicas, se tornarem parte de uma congregação de direito pontifício. A fundadora, diante dessa situação dolorosa, diz: "Aconteça o que acontecer, elas não devem se tornar católicas".[18] Apesar de poucas irmãzinhas não-católicas terem podido participar plenamente da fraternidade como Irmãzinha Madalena desejava, tinham chegado a um acordo: os votos das irmãzinhas não-católicas não seriam feitos "nas mãos" da responsável geral, mas na sua presença. Em setembro de 1996, duas irmãzinhas da Igreja Reformada Suíça, fazem seus votos definitivos na celebração presidida por um pastor evangélico, assim as portas do ecumenismo se mantiveram abertas para os evangélicos. 

3.2  O testemunho evangélico dos Irmãos de Taizé

A Comunidade de Taizé[19] surgiu no ano de 1940, em plena Segunda Guerra Mundial, quando o Irmão Roger (pertence a Igreja Calvinista da Suíça), deixando a Suíça, país que não se manteve neutra na guerra, comprou uma pobre casa abandonada, no interior da França, para servir de acolhida aos refugiados e aos perseguidos políticos e judeus. Repetindo um gesto de amor e solidariedade, que sua avó fez na Primeira Guerra Mundial.




              O respeito aos não cristãos e o amor àqueles que sofrem, esteve desde o início da Comunidade, fazendo de Taizé, um lugar aberto aos crentes e não crentes em Jesus, portanto, ecumênica.

              Irmão Roger não se limitou apenas em ficar acolhendo pessoas por tempo provisório. Não se limitou em tratar os outros não cristãos, os que não comungavam com sua forma de rezar e acreditar em Deus, somente com sentimentos de solidariedade emergencial. Ele ousou mais; acreditou que o diferente poderia viver em comunidade, na partilha cotidiana pela sobrevivência e na cooperação por uma causa a mais; que os cristãos de diferentes denominações e tradições religiosas poderiam dar testemunho dessa possibilidade; que os seres humanos podem ser felizes juntos, vivendo em paz, sem guerra, sem mortes e sem estarem divididos. 

              Mas como podemos imaginar que membros de igrejas historicamente divididas, com doutrinas e teologias diferentes, podem conviver e partilhar a fé e a vida, numa comunidade de vida comum?  

              Assim como as Fraternidades de Foucauld, Taizé nasce num espírito essencialmente ecumênico. No seu início, os irmãos de Taizé eram de origem evangélica, mas, logo católicos juntaram-se aos evangélicos, tornando-se uma comunidade de diversos credos cristãos, de diversas denominações cristãs: luteranos, calvinistas, presbiterianos, anglicanos, católicos e outros. Convivem sobre o mesmo teto, dormem na mesma casa, partilham os trabalhos e as refeições e, sobretudo, oram e lutam juntos pelo bem de todas as pessoas. São aproximadamente uns cem irmãos morando no vilarejo de Taizé, na França e em outras partes do mundo, como em Bangladesh e no Brasil, entre outros países; morando em bairros e lugares marginalizados, junto com os mais pobres. 

              Desde 1957, a Comunidade de Taizé tem acolhido jovens vindos de várias partes da Europa e do mundo, para passarem dias ou semanas de oração e convivência. Com o intuito de proporcionar essa partilha de oração na espiritualidade de Taizé, os irmãos começaram a ir a diversos países promovendo Jornadas da Confiança. No Brasil, a Comunidade chegou em 1966, e desde 1978 os irmãos moram em Alagoinhas-BA, a 110 km da capital do Estado, vivendo na periferia da cidade. Desde 1997, realizam a Jornada da Confiança a nível nacional. Este ano acontecerá na Cidade de Goiás, nos dias 08 a 12 de outubro. Esses encontros com a juventude, não têm por objetivo criar ao redor de Taizé um movimento particular, mas incentivar os jovens "a tornarem-se, nos locais onde moram, criadores da paz, portadores de reconciliação na Igreja e de confiança sobre a terra, comprometendo-se no seu bairro, na sua cidade, na sua paróquia, com todas as gerações, desde as crianças até as pessoas de idade".[20]

              Olhando para as Fraternidades de Foucauld e a Comunidade de Taizé, percebe-se a realidade, a possibilidade concreta do ecumenismo. Um ecumenismo que não esperou as resoluções eclesiásticas, não esperou que fossem decididas e assinadas leis ecumênicas, pela hierarquia. Mas um ecumenismo feito por cristãos, livres e não desacreditados com o essencial da vida humana, da bondade e esperança que habita em cada pessoa, desejosos por uma "vida boa", de paz e felicidade para o mundo; cristãos que colocaram em prática tão somente o mandamento do amor, deixado pelo próprio Cristo: "para que o amor com que me amaste esteja neles".[21]




IRMÃO ROGER , FUNDADOR DA COMUNIDADE DE TAIZÉ






BIBLIOGRAFIA

BOFF, Leonardo. Saber cuidar: ética do humano, compaixão pela Terra. Petrópolis: Vozes, 1999.

______________. Ethos Mundial. Rio de Janeiro: Sextante, 2003.

CNBB. O que é ecumenismo? Uma ajuda para trabalhar a exigência do diálogo. Coleção: Rumo ao Novo Milênio. 4a. edição. São Paulo: Paulinas, 2000.

CONIC/CNBB. Campanha da Fraternidade 2000 (Ecumênica) – Dignidade Humana e Paz. São Paulo: Editora Salesiana Dom Bosco, 1999.

CONIC. Internet > http: www.conic.org.br . Brasília, 2004.

DOCUMENTOS DO CONCÍLIO ECUMÊNICO VATICANO II (1962-1965) / [organização geral Lourenço Costa; tradução tipográfica Poliglota Vaticana]. São Paulo: Paulus, 1997.

DONEGANA, Costanzo (org.). Mulheres geradoras de fraternidade. In: Mundo e Missão, maio de 2004, ano 11 Nº 82.

FRUTOS DO DESERTO. Vídeo sobre a herança de Carlos de Foucauld. São Paulo: Verbo Filmes, 2003.

                  GOHN, Maria da Glória. Movimentos sociais e educação. 2ª. Edição. São Paulo, Cortez, 1994.
                   
______________. Educação Não-Formal e Cultura Política. 2a. edição. São Paulo, Cortez, 2001. 120 p.
                   
                  GRAMSCI, Antonio. Os intelectuais e a organização da cultura. 5ª. Edição. São Paulo, Civilização Brasileira, 1985.

LEPETIT, Charles. O Parceiro Invisível. São Paulo: Paulinas, 1982.

MOUNIER, Emmanuel. O Personalismo. 4a. Edição. Lisboa, Martins Fontes, 1976. 210 p.

SPINK, Kathryn. O Chamado do Deserto. Biografia de Ir. Madalena de Jesus. São Paulo: Loyola, 1997.

TEIXEIRA, Faustino. Teologia das Religiões. São Paulo: Paulinas, 1995.

VOILLAUME, René. Nos Caminhos dos Homens. Rio de Janeiro: Editora Agir, 1967.

WOLFF, Elias. Caminhos do ecumenismo no Brasil. São Paulo: Paulus, 2002.




[1] Filósofo. Especialista em Ciências da Religião/UCG. Mestre em Educação/Unicamp. Membro do GEMDEC/Unicamp. Membro da Rede de Movimentos Sociais na América Latina (REDEMS).
[2] Licenciada em Geografia. Bacharel em Administração. Especialista em Psicopedagogia/UFU e Metodologia do Processo de Ensino-Aprendizagem em Geografia/Universidade São Luís em Jaboticabal-SP. Especialista em Ciências da Religião/UCG. Professora na Rede Estadual de Ensino no Estado de Goiás – Ensino Fundamental e Médio. Coordenadora Pedagógica do Ensino Fundamental I e II da Rede Municipal de Ensino em Goiatuba – GO.
[3] Articulador Estadual em Goiás do Movimento de Adolescentes e Crianças (MAC). Historiador e Teólogo. Especialista em Formação Sócio-Econômica do Brasil/Universo. Especialista e Mestrando em Ciências da Religião/UCG. Professor da Rede Estadual de Ensino em Goiânia. Leciona no Ensino Fundamental e Médio na cidade de Goiânia.
[4] Bispo Católico da Prelazia de São Félix do Araguaia – MT.
[5] Não se pode esquecer que a fiel escudeira dos Estados Unidos é a Inglaterra que tem como ministro Tony Blair, um trabalhista que assume toda a ideologia de poder sendo cooptado pela lógica do capital.
[6] Na verdade, os Estados Unidos da América gastou em torno de US$ 400 bilhões com a Guerra do Iraque em 2003. Desde quando o presidente Busch assumiu o poder na Casa Branca, iniciou-se um grande programa (retoma-se o modelo da Guerra Fria) chamado “Guerra nas Estrelas” com a finalidade de realizar maiores investimentos em arsenais bélicos que seriam utilizados contra países que viessem a se tornar infiéis aos acordos unilaterais organizados pelos USA.
[7] Os movimentos sociais surgem com toda a força no séc. XIX devido ao auge das chamadas Revoluções Industriais. A II Revolução Industrial foi o fim da era da passividade dos trabalhadores culminando na chamada revolução proletária fazendo surgir na sociedade os movimentos operários, os conselhos de fábricas e as reivindicações populares em busca de mais dignidade e vida para todos. Os cristãos vão aos poucos se inserindo nesta luta. Não se pode esquecer da Encíclica Rerum Novarum do Papa Leão XIII.
[8] O Concílio Vaticano II aconteceu entre 1962-1965 sob os pontificados de João XXIII e de Paulo VI. A respeito do Ecumenismo e do Macro-Ecumenismo pode-se citar três documentos importantes que são: NA (Nostra aetate – Declaração sobre as relações da Igreja com as religiões não cristãs); a UR (Unitatis Redintegratio – Decreto sobre o ecumenismo) e a GS (Gaudium et Spes – Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo de hoje). Neste sentido, conferir Documentos do Concílio Ecumênico Vaticano II, 1997.
[9] Torna-se importante destacar que vários consultores de outras igrejas foram convidados para participar do Concílio como observadores ad hoc.
[10] O tema da Campanha da Fraternidade foi Dignidade Humana e Paz com o lema: Novo Milênio sem exclusões.
[11] É também conhecido no Brasil como Irmãozinho Carlos de Jesus.
[12] Este nome é empregado para todos os grupos que fazem parte da Família de Foucauld, sejam as congregações religiosas, as associações de leigos ou dos padres diocesanos.
[13] MADALENA, Irmãzinha. Frutos do Deserto. Vídeo sobre a herança de Carlos de Foucauld. Verbo Filme, São Paulo, 2003.
[14] Op. cit. Pela Revista Mundo e Missão.  Maio de 2004, ano 11 Nº 82, pg. 24.
[15] Idem. pg. 24.
[16] GENOVEVA, Irmãzinha. Frutos do Deserto. Vídeo sobre a herança de Carlos de Foucauld. Verbo Filme, São Paulo, 2003.
[17] MADALENA, Irmãzinha. Op. cit. Pela Revista Mundo e Missão. Maio de 2004, ano 11 Nº 82, pg. 24.
[18] MADALENA, Irmãzinha. In: SPINK, Katryn. O Chamado do Deserto. São Paulo: Loyola, 1997.
[19] Nome do vilarejo francês onde surgiu a comunidade.
[20] DONEGANA, Costanzo, (Org.) Revista Mundo e Missão, julho-agosto 1999 - ano 06 Nº 34, pg. 23.
[21] JOÃO, Evangelho Segundo, capítulo 17, versículo26b



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