sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

DIA DE DESERTO IMPROVISADO


retiro de tapera 
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Hoje me puseram na portaria da firma em que trabalho por ter faltado o porteiro habitual. Não fiquei na saleta, mas num puxado coberto com duas árvores frondosas, o que dá um pouco menos de calor do que na cobertura comum, mas não adiantou muito, pois o dia foi muito quente.

O horizonte se vê de modo amplo deste lugar, com muitas árvores e poucas casas espalhadas aqui e ali.

O céu, com poucas nuvens, emoldurava o cenário. Quase ninguém por perto. Poucas solicitações de entradas e saídas. Achei o ambiente e a oportunidade excelentes para um dia de deserto, coisa que há tempo não consigo fazer com fidelidade, por absoluta falta de oportunidade. A firma não dá feriado: trabalhamos quase todo o tempo.

Comecei o meu improvisado dia de deserto lendo alguns escritos de 1993, entre eles, o boletim 90 da fraternidade sacerdotal, a que pertenço desde março de 1973 (http://gritaroevangelho.blogspot.com). Esse boletim fala do retiro que fizemos em Tapera, a 18 km de Curitiba (PR).

Envolvi-me no texto, que fora editado por mim mesmo, e li também alguns textos dessa época que escrevi. Comecei a comparar esses textos com o que tem sido minha vida nos últimos dez anos, desde que me consagrei como Eremita de Jesus Misericordioso, em 2001.

Quantas coisas bonitas ali escritas! Quantas coisas verdadeiras, que nos leva a uma felicidade plena com Deus! Estou preparando muitos desses escritos para publicar nos blogs que coordeno.

Ao pensar nisso tudo, senti um arrepio, enquanto contemplava Jesus no céu aberto à minha frente, com os olhos da minha imaginação. Percebi o quanto a gente vai relegando a própria conversão para amanhã, sempre para amanhã, nunca para hoje!

Percebi que não podemos alegar desconhecimento do caminho para a santidade. Seria mentira! Nenhum de nós.

Fiquei suspenso nessa angústia de ainda não ser santo, apesar de tantas graças divinas, apesar dos sofrimentos e humilhações que tenho passado, sentindo o calor do dia, que se refletia de fora da cobertura.

O retiro de Tapera! Que coisa maravilhosa! As instalações precárias, coisa de pobre mesmo! Aquelas palavras bonitas, aquele canto-mantra do Pe. João, a poesia do Pe. Mário Aldighieri (veja-a no blog gritar o evangelho), por que não me convenceram? Que ingratidão fazemos a Deus quando fazemos retiros e mais retiros e não nos convertemos como um Santo Agostinho, São Paulo Apóstolo, que se converteram de uma vez para sempre! Quantos retiros iremos precisar para realmente mudar de vida?

O calor aumentava e invadira até a cobertura em que eu estava, sob as árvores. A dado momento, um dos donos da firma, homem muito simples, voltava de uma saída que fizera, e me deu uma garrafinha de refrigerante geladinho.

Sorri, meio sem saber o que falar, e o bebi com uma alegria infantil. Aquele refrigerante, naquela hora, dado de modo tão espontâneo e gratuito, significou muito, pelo menos para mim, muito mais do que um refrigerante comum: naquele momento da minha reflexão, era o símbolo do amor de Deus e da amizade daquele senhor para comigo, um simples funcionário da classe mais inferior da firma.

O véu que me envolvia se desvaneceu e eu vi de modo mais claro: Deus nos ama! Deus nos quer para o paraíso! E Ele exige de nós, de modo concreo, que queiramos sempre recomeçar o caminho, quer caiamos ou não!

Eu expliquei o Evangelho um “milhão” de vezes, ao vivo e nos escritos, e ainda explico, por meio dos blogs. Pode ser que eu não o tenha seguido sempre, mas percebi que o importante é não ficar parado, não ficar no chão!

O importante é invisível para os olhos”, diz Saint-Exupery, em “O Pequeno Príncipe”. Entretanto, o importante não era invisível nesse caso: estava ali, bem visível, na realidade: o gesto amigo e gratuito daquele cara me dando sem mais nem menos, um refrigerante gelado.

Esse dia na portaria foi um dos melhores que tive desde que trabalho aqui, há quase um ano.

Isaías viu-se um dia no céu, Deus andando de um lado para outro, perguntando, com uma das mãos na testa e outra para trás: “A quem enviarei?” E olhava para Isaías. Ele olhou para trás, não viu ninguém, e tremeu. Disse a Deus: “Senhor, nem pense em me enviar! Sou um homem de lábios impuros!” Deus fez um sinal a um Querubim, que pegou com a tenaz uma brasa do braseiro de incenso e purificou com ela os lábios do profeta. E lhe disse”Pronto! Você já está purificado! Agora pare de se queixar e vá anunciar a minha Palavra!”.

Hoje percebi que aconteceu a mesma coisa para mim. Eu, me lamentando dos meus pecados, e Deus me dizendo:
Teófilo, chorão! Pare de se lamentar! Eu perdoei você! Tome esse refrigerante, refresque-se e continue a gritar o meu evangelho com a sua vida! Nunca desanime! Sempre avante! Sempre a caminho! Todos verão que, se o céu é possível a você, o será a qualquer pessoa!”

Gente, acho que este foi um dos melhores desertos da minha vida. Superou até o de Tapera! Que refrigerante abençoado!

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