terça-feira, 27 de dezembro de 2011

CURSO DE BATISMO EM 5 ENCONTROS

            PREPARAÇÃO AO BATISMO – (baseado no estudo “Conscientização e Comunhão, de Afonso M.L. Soares)




O batismo é o sacramento que nos coloca no plano de Deus par a salvação da humanidade. Ele nos abre a “torneira” da graça divina. O batismo nos liga a uma comunidade santa, a comunidade dos que se amam e amam a Deus.
            Só tem sentido aceitar o batismo se assumirmos essa proposta de Jesus Cristo de sermos, como ele mesmo disse, “Um só, como o Pai e eu somos um” (Jo 17,11.22-23), ou seja, de amarmo-nos uns aos outros e também a proposta de O amarmos sobre tudo o que existe,sobretudo mais do que amamos a nós mesmos.
           
Esse sonho de Jesus de um mundo irmão que se ama e vive sob a sua proteção e amor, pode ser possível desde agora, se aceitarmos essa exigência do batismo.
            Não é nada comum pai e mãe palmeirenses “roxos” levarem o filho a se matricular na escolinha de futebol do Corinthians! Aposto que você até riu ao imaginar a cena. Da mesma forma, pais que não acreditam ser possível essa fraternidade não estão sendo sinceros ao levarem o filho a se engajar, pelo batismo, nesse mundo de fraternidade em que eles próprios não acreditam!
            A primeira coisa a fazerem, pois, é tentarem convencer-se a si mesmos que a conversão pessoal à comunidade da Igreja é a primeira condição para que o batismo dos filhos seja fértil e produtivo.
            A criança é levada a ser batizada: isso significa: “Estou entregando meu filho a uma comunidade de amor, doação e perdão, a que eu mesmo devo querer entrar”.
            A psicóloga Maria Clara Jost de Moraes Vilela, de BH, trabalha numa clínica, a Fundasinum, que justamente se fixa nesse ponto: eu busco o amor e, se não o encontro, adquiro inconscientemente uma doença para que me amem. à medida em que eu me conscientizo dos mecanismos que me levaram a essa doença, e à medida em que eu passo a amar, a partilhar, eu começo a me curar, pois começo a perceber que as pessoas me amam.
            Assim também no batismo: à medida em que eu não só entrego meu filho à comunidade católica, mas também em que eu me entrego meu filho à comunidade católica, mas também em que eu me entrego junto, o amor começa a fazer parte de minha vida, e o batismo do meu filho vai também fazer com que eu renove o meu próprio batismo e tudo acabará bem, no mundo novo que Jesus veio anunciar e inaugurar.

2° encontro: a gratuidade do batismo
Não devo levar o meu filho ao batismo com a idéia de que se eu não fizer isso, ele vai receber algum mal ou punição.
            Todos os seres humanos já nascem tocados pela graça amorosa de Deus. Ao batizar meu filho, já estou reconhecendo essa graça amorosa de Deus: eu não a estou provocando ou forçando Deus a me dá-la. A graça de Deus existe muito antes que eu sequer pensasse em batizar meu filho.
            Se você não se sente a fim de participar dessa mensagem cristã, dê um tempo, procure se esclarecer mais, procure se educar melhor na fé cristã, mesmo que para fazer isso você adie o batismo de seu filho. Não o batize só por medo do castigo de Deus!
            Tire da cabeça a idéia de que o batismo cura de sapinhos, doenças, tira o azar, impede de que o saci o leve, e outras superstições!
            Na verdade, uma comunidade que ama a Deus e se ama, é uma comunidade em que a doença e a pobreza não vão ter vez, pois todos se ajudam, se amam, e não têm necessidade de adquirirem doenças psicossomáticas (causadas por nós mesmos, inconscientemente).
            Isso leva a comunidade cristã a uma vida mais humana, mais de acordo com os desejos de Jesus, que disse em João 10,10b: “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância”!
            Isaías 1,11-20 lembra-nos que se praticarmos a caridade, a misericórdia, o verdadeiro amor, Deus nos perdoará todos os pecados e, “Se vossos pecados forem vermelhos como a púrpura, ficarão brancos como a lã,(...), como a neve”.
            Pelo contrário, se não praticarmos o amor cristão, Deus virará o rosto para o outro lado para não ouvir nossas orações mentirosas e nossas ofertas apodrecidas pelo mal (Isaías 1,1-11).
            Quando as pessoas chegavam em João Batista para serem batizadas, lhe perguntavam o que deveriam fazer, ao que João respondi ((Lc 3,10-14):

            “Quem tem duas túnicas de uma ao que não tem. Quem tem o que comer, faça o mesmo(...); não exijais mais do que vos foi ordenado(...); Não pratiqueis violência, nem defraudeis a ninguém, e contentai-vos (os soldados) com vosso soldo”

3° encontro: o papel dos padrinhos


            A princípio, os padrinhos são testemunhas de qu o batismo foi realizado, ou seja, são provas vivas de que aquele fulano é filho de Deus e membro verdadeiro da Igreja Católica.

            No AT, só era aceita uma acusação ou algum fato se houvesse duas testemunhas, no caso, homens. Maria Madalena viu Jesus ressuscitado, mas o seu testemunho só teve valor quando Pedro e João testemunharam a ressurreição.

            No Batismo de Jesus havia também duas testemunhas: o Pai, que falou do céu: “Eis o meu Filho amado, em quem pus minha complacência” e o Espírito Santo, em forma de pombo.

            No Tabor havia três testemunhas humanas: Pedro, João e Tiago, e mais duas testemunhas celestes: Moisés e Elias .

            Na cruz houve duas testemunhas da morte de Jesus: os dois ladrões. E assim por diante.

            No batismo os padrinhos exercem, pois, em primeiro lugar, o papel de testemunhas.

            Em segundo lugar, exercem o papel de garantia de que aquela criança vai ser educada no amor de Deus e ao próximo, por meio da participação na e da comunidade, pois eles não são os únicos responsáveis: a comunidade toda é convidada a participar da educação religiosa da criança.

            Como estamos longe disso! Os próprios pais muitas vezes não estão dando “a mínima” em participar da comunidade e, errando ainda mais, convidam padrinhos alheios à comunidade e até de religiões não cristãs, como o espiritismo, muitas vezes não tendo a mínima condição de serem padrinhos. Não tenho nada contra os espíritas ou pessoas de outras religiões, mas para ser padrinho numa Igreja Católica, é necessário que a pessoa confesse o Credo católico. Não tem sentido uma pessoa que não acredita no que diz a Igreja Católica testemunhar em favor de alguém a quem vai ter (pela promessa feita no batismo) que ensinar aquela fé em que não acredita! A pessoa pode ser uma ótima pessoa, mas soa contrastante tal ato. 

            “Ser padrinho para ficar parente” é o desejo que muitos têm e, infelizmente, isso faz com que o batismo de crianças fique cada vez mais inviável.

            Antigamente havia uma cristandade que acolhia a criança: todos tinham o costume de participar. Atualmente isso não mais existe e seria necessário que os padrinhos realmente auxiliassem os pais nesse assunto de educar a criança na comunidade da Igreja.

            Ninguém conserta um rádio se não entender de eletrônica pelo menos um pouco; ninguém consegue educar uma criança no amor a Deus e ao próximo se não praticar o amor ensinado por Jesus, ou pelo menos sempre procurar praticar esse amor. 

            Deus é misericordioso e talvez não acabemos todos no inferno por causa disso, mas pelo menos uma coisa é certa; não participaremos da alegria que é viver em comunidade.

4° encontro: a água do batismo


                      “A água lava, lava, lava tudo! A água só não lava a língua dessa gente!” - dizia uma canção carnavalesca antiga. O símbolo da água é muito especial na liturgia e na vida diária:
            - todos os seres vivos precisam de água para viver.
            - a água não só conserva, mas gera a vida.
            - a água promove a higiene, a purificação, a limpeza e, consequentemente, a saúde.
            - nos textos bíblicos, a água simboliza a mudança de estado ou de condição, como a travessia do Mar Vermelho, no êxodo promovido por Moisés, ou no dilúvio universal do Gênesis 6.
            - no NT vemos a cena das bodas de Caná da Galiléia, em que Jesus transformou 600 litros de água em vinho: nossa natureza humana, simbolizada pela água, se revestindo do divino, representado pelo vinho. O vinho não surgiu do nada, mas da água.
            -quando se mergulha a criança na água, ela “morre” para uma vida rançosa e quando o ministro a retira da água, ela “ressuscita” para uma vida nova de perdão, amor, misericórdia e alegria.
            -quando eu vou à praia, gosto de ver o musgo nascido nas pedras, alimentado pela água salgada do mar.
            O batismo perdoa todos os pecados, quando a pessoa já tem o uso da razão, e purifica, tanto adultos como crianças, do pecado original.
            O pecado original é como um “defeito de fabricação”, com o qual todos nascem. O batismo é como uma reparação desse defeito de fabricação, e isso nos possibilita entrarmos no paraíso, se vivermos de acordo com os ensinamentos de Jesus.
            Ninguém sabe exatamente como foi feito o pecado original, mas sabemos que foi uma revolta, uma desobediência grave a Deus. Como os anjos que se rebelaram e queriam o poder divino, os primeiros seres humanos, simbolizados em Adão e Eva, também quiseram ser deuses, ou seja, não quiseram a interferência de Deus em suas vidas.
            Espere aí! Não parece que você “já viu esse filme”? Pois é!  isso ocorre até hoje. O pecado nada mais é do que um ato de desobediência a Deus: achamos que podemos viver sem a sua ajuda e fazemos o que queremos.  entretanto, nos esquecemos de que a única forma de sermos felizes é obedecermos a Deus!

            Jesus, aceitando morrer na cruz, nos libertou das conseqüências do pecado original. Ele, homem e Deus, obedeceu ao Pai plenamente, e por essa obediência, não usou o poder divino que possuía para livrar-se da morte: enfrentou-a com coragem, e isso nos salvou. Pela água do batismo, ao mesmo tempo em que nos purificamos, passamos a usufruir dessa salvação que Jesus Cristo nos trouxe com sua vida, paixão e morte na cruz.

5° encontro: a cerimônia do batismo


   O ministro do batismo (padre, diácono ou leigo), pergunta o nome da criança. Na bíblia, o nome significava o próprio ser e a missão da pessoa aqui no mundo.
            Deus nos deu a vida, mas nós é que damos o nome, ou seja, nós é que somos responsáveis pelas pessoas que pusemos no mundo. É isso que nos diz o 2º capítulo do Gênesis, ao lembrar que foi Adão e não Deus quem deu o nome aos animais e a tudo o mais.
            Você é, pois, totalmente responsável pela criança que colocou no mundo. Sua vida, sua felicidade, dependem muito do modo como você vai educá-la e criá-la.
            O ministro impõe a mão na criança e unge seu peito com o óleo dos catecúmenos, símbolo da vida e que a criança recebeu de Deus, e pede que Ele a fortaleça para a luta diária contra o pecado. Essa unção antes do batismo é feita no peito, porque este é o lugar onde se encontra o coração, que é o símbolo do amor. A pessoa que está sendo batizada se torna, então, um catecúmeno, ou seja, está na lista dos que vão ser batizados. Nos adultos, essa espera pode durar até anos.
            Um catecúmeno que morre, morre como uma pessoa batizada. Os pais e os padrinhos manifestam então o desejo do batismo daquela criança e ela é batizada em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
            A vela representa a luz de Cristo, que a criança recebeu no batismo. Acendendo-a no círio pascal, que representa Jesus Cristo ressuscitado, ele quer mostrar que, pelo batismo, aquela criança recebeu a luz de Cristo, para iluminar as suas trevas.
            Cabe aos pais e padrinhos ensinarem ao neo-batizado a separar e a discernir entre o claro e o escuro da vida. Se pedirmos sempre a luz, Jesus, ele faz com que a que já temos seja tirada “de debaixo da mesa e colocada no candeeiro, para que ilumine toda a casa”.
            O Espírito Santo apareceu como fogo em Pentecostes, e a vela é como que a parte desse fogo, que ilumina a todos os batizados, com Sua força, que faz de nós o seu Santo templo.
            A graça abundante que o batismo nos traz deve ser conservada e fortalecida com o amor, a misericórdia e a perseverança na obediência a Deus, na pessoa de Jesus Cristo, conservando-nos sob a tutela da Igreja, nossa mãe e mestra.
            É o caminho livre, belo e florido, que nos conduz ao céu, embora às vezes tenhamos que passar também por alguns espinhos!

(As  demais normas seguidas pela comunidade devem aqui serem explicadas aos pais e padrinhos, como por exemplo quem pode ou não ser batizado, se isso já não foi dito no início).

                        

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

AS 12 ORAÇÕES DE SANTA BRÍGIDA

 

Ver a biografia dela em

Como já há muito tempo Santa Brígida desejasse saber o número de golpes que Jesus levara durante a Paixão, certo dia Ele lhe apareceu dizendo: ”Recebi em todo o Meu Corpo 5.480 golpes. Se desejais honras as chagas que eles ME produziram, mediante uma veneração particular, deveis recitar 15 Pai Nossos e 15 Ave-Marias, acrescentando as seguintes orações, durante um ano inteiro; quando o ano terminar, tereis prestado homenagem a cada uma das Minhas Chagas.”

Não sabemos se isso realmente aconteceu, mas as orações são muito profundas e nos levam a uma ótima reflexão ao seguirmos a Via Sacra.

PRIMEIRA ORAÇÃO

1 Pai Nosso...
(Pai-nosso, que estais no Céu, santificado seja o vosso Nome; venha a nós o vosso reino; seja feita a vosso vontade assim na Terra como no Céu. O pão nosso de cada dia nos dai hoje; perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido; e não nos deixeis cair em tentação; mas livrai-nos do mal. Amém.)

1 Ave Maria...
(Ave Maria, cheia de graças, o Senhor é convosco, bendita sois vós entre as mulheres e bendito é o fruto do seu ventre, Jesus. Santa Maria Mãe de Deus rogai por nós pecadores agora e na hora de nossa morte. Amém.)

Ó JESUS CRISTO, doçura eterna para aqueles que vos amam, alegria que ultrapassa toda a alegria e todo o desejo, esperança de salvação dos pecadores, que declarastes não terdes maior contentamento do que estar entre os homens, até o ponto de assumir a nossa natureza, na plenitude dos tempos, por amor deles. Lembrai-Vos dos sofrimentos, desde o primeiro instante da Vossa Conceição e sobretudo durante a Vossa Santa Paixão, assim como havia sido decretado e estabelecido desde toda a eternidade na mente divina. Lembrai-Vos Senhor, que, celebrando a Ceia com os Vossos
discípulos, depois de lhes haverdes lavado os pés, deste-lhes o Vosso Sagrado Corpo e precioso Sangue e, consolando-os docemente lhes predissestes a Vossa Paixão
iminente. Lembrai-Vos da tristeza e da amargura que experimentastes em Vossa Alma como o testemunhastes Vós mesmo por estas palavras: ”a Minha Alma está triste até a
morte”.

Lembrai-Vos, Senhor, dos temores, angústias e dores que suportastes em Vosso Corpo delicado, antes do suplício da Cruz, quando, depois de ter rezado por três vezes,derramado um suor de Sangue, fostes traído por Judas Vosso discípulo, preso pela nação que escolhestes, acusado por testemunhas falsas, injustamente julgado por três juízes, na flor da Vossa juventude e no tempo solene da Páscoa. Lembrai-Vos que fostes despojado de Vossas vestes e revestido com as vestes da irrisão, que Vos velaram os olhos e a face, que Vos deram bofetadas, que Vos coroaram de espinhos, que Vos puseram uma cana na mão e que, atado a uma coluna, fostes despedaçado por golpes e acabrunhado de afrontas e ultrajes. Em memória destas penas e dores que suportastes antes da Vossa Paixão sobre a Cruz, concedei-me, antes da morte, uma verdadeira contrição, a oportunidade de me confessar com pureza de intenção e sinceridade absoluta, uma adequada satisfação e a remissão de todos os meus pecados. Assim seja!

SEGUNDA ORAÇÃO
1 Pai Nosso...
1 Ave Maria...

Ó JESUS CRISTO, verdadeira liberdade dos Anjos, paraíso de delícias, lembrai-Vos do peso acabrunhador de tristezas que suportastes, quando Vossos inimigos, quais leões furiosos, Vos cercaram e, por meio de mil injúrias, escarros, bofetadas, arranhões e outros inauditos suplícios Vos atormentaram a porfia. Em consideração destes insultos e
destes tormentos, eu Vos suplico, ó meu Salvador, que Vos digneis libertar-me dos meus inimigos, visíveis e invisíveis e fazer-me chegar, com o Vosso auxílio a perfeição da salvação eterna. Assim seja!

TERCEIRA ORAÇÃO
1 Pai Nosso...
1 Ave Maria...

Ó JESUS, Criador do Céu e da terra, a quem coisa alguma pode conter ou limitar, Vós que tudo abarcais e tendes tudo sob o Vosso poder, lembrai-Vos da dor, repleta de amargura, que experimentastes quando os soldados, pregando na Cruz Vossas Sagradas mãos e Vossos pés tão delicados, transpassaram-nos com grandes e rombudos cravos e não Vos encontrando no estado em que teriam desejado, para dar largas a sua cólera, dilataram as Vossas Chagas, exacerbando assim as Vossas dores.Depois, por uma crueldade inaudita, Vos estenderam sobre a Cruz e Vos viraram de todos os lados, deslocando, assim, os Vossos membros. Eu vos suplico, pela lembrança desta dor que suportastes na Cruz, com tanta santidade e mansidão, que Vos digneis conceder-me o Vosso Temor e o Vosso Amor. Assim seja!

QUARTA ORAÇÃO
1 Pai Nosso...
1 Ave Maria...

Ó JESUS, médico celeste, que fostes elevado na Cruz afim de curar as nossas chagas por meio das Vossas, lembrai-Vos do abatimento em que Vos encontrastes e das contusões que Vos infligiram em Vossos Sagrados membros, dos quais nenhum permaneceu em seu lugar, de tal modo que dor alguma poderia ser comparada a Vossa. Da planta dos pés até o alto da cabeça, nenhuma parte do Vosso Corpo esteve isenta de tormentos e, entretanto, esquecido dos Vossos sofrimentos, não Vos cansastes de suplicar a Vosso PAI, pelos inimigos que Vos cercavam, dizendo-LHE: ”PAI, perdoai-lhes porque não sabem o que fazem”. Por esta grande misericórdia e em memória desta dor, fazei com que a lembrança da Vossa Paixão, tão impregnada de amargura, opere em mim uma perfeita contrição e a remissão de todos os meus pecados. Assim seja!

QUINTA ORAÇÃO
1 Pai Nosso...
1 Ave Maria...

Ó JESUS, espelho do esplendor eterno. Lembrai-Vos da tristeza que sentistes, quando,contemplando a luz da Vossa Divindade a predestinação daqueles que deveriam ser salvos pelos méritos da Vossa santa paixão, contemplastes, ao mesmo tempo, a multidão dos réprobos, que deveriam ser condenados por causa de seus pecados e lastimastes, amargamente, a sorte destes infelizes pecadores, perdidos e
desesperados. Por este abismo de compaixão e de piedade e, principalmente, pela bondade que manifestastes ao bom ladrão dizendo-lhe: ”Hoje mesmo estarás Comigo no Paraíso”, eu Vos suplico ó Doce Jesus, que na hora da minha morte useis de misericórdia para comigo. Assim seja!

SEXTA ORAÇÃO
1 Pai Nosso...
1 Ave Maria...

Ó JESUS, Rei amável e de todo desejável, lembrai-vos da dor que experimentastes quando, nu e como um miserável, pregado e levantado na Cruz, fostes abandonado por todos os vossos parentes e amigos, com exceção de Vossa mãe bem amada, que permaneceu, em companhia de São João, muito fielmente junto de Vós na agonia, lembrai-Vos que os entregastes um ao outro dizendo: ”Mulher eis aí o teu filho”! e a João: ”Eis aí a tua Mãe!” Eu vos suplico, ó meu Salvador, pela espada de dor que então transpassou a alma de, Vossa Santa Mãe, que tenhais compaixão de mim, em todas as minhas angústias e tribulações, tanto corporais como espirituais e que Vos digneis assistir-me nas provações que me sobrevierem, sobretudo na hora da minha morte.Assim seja!

SÉTIMA ORAÇÃO
1 Pai Nosso...
1 Ave Maria...

Ó JESUS, fonte inexaurível de piedade, que por uma profunda ternura de amor,dissestes sobre a Cruz: ”Tenho sede!”, mas sede de salvação do gênero humano. Eu Vos suplico, ó meu Salvador, que Vos digneis estimular o desejo que meu coração experimenta de tender a perfeição em todas as minhas obras e extinguir, por completo, em mim, a concupiscência carnal e o ardor dos desejos mundanos. Assim seja!

OITAVA ORAÇÃO
1 Pai Nosso...
1 Ave Maria...

Ó JESUS, doçura dos corações, suavidade dos espíritos, pelo amargo sabor do fel e do vinagre que provastes sobre a Cruz por amor de todos nós, concedei-me a graça dereceber dignamente o Vosso Corpo e Vosso Preciosíssimo Sangue, durante toda a minha vida e, na hora da minha morte afim de que sirvam de remédio e de consolo para minha alma. Assim seja!

NONA ORAÇÃO
1 Pai Nosso...
1 Ave Maria...

Ó JESUS, virtude real, alegria do espírito, lembrai-Vos da dor que suportastes, quando,mergulhado na amargura, ao sentir aproximar-se a morte, insultado e ultrajado pelos homens, julgastes haver sido abandonado por Vosso PAI dizendo: ”Meu DEUS, Meu DEUS, porque Me abandonastes?” Por esta angústia eu Vos suplico ó meu Salvador,que não me abandoneis nas aflições e nas dores da morte. Assim seja!

DÉCIMA ORAÇÃO
1 Pai Nosso...
1 Ave Maria...

Ó JESUS, que sois em todas as coisas começo e fim, vida e virtude, lembrai-Vos de que por nós fostes mergulhado num abismo de dores, da planta dos pés até o alto da cabeça. Em consideração da extensão das Vossas chagas, ensinai-me a guardar os Vossos Mandamentos, mediante uma sincera caridade, mandamentos estes que são caminhos espaçosos e agradáveis para aqueles que Vos amam. Assim seja!

DÉCIMA PRIMEIRA ORAÇÃO
1 Pai Nosso...
1 Ave Maria...

Ó JESUS, profundíssimo abismo de misericórdia, suplico-Vos, em memória de Vossas Chagas, que penetraram até a medula dos vossos ossos e atingiram até as vossas entranhas, que vos digneis afastar esse pobre pecador do lodaçal de ofensas em que está submerso conduzindo-o para longe do pecado. Suplico-Vos também, esconder-me
de Vossa face irritada, ocultando-me dentro de Vossas chagas, até que a Vossa cólera e a Vossa justa indignação tenham passado. Assim seja!

DÉCIMA SEGUNDA ORAÇÃO
1 Pai Nosso...
1 Ave Maria...

Ó JESUS, espelho de verdade, sinal de unidade, laço de caridade, lembrai-Vos dos inumeráveis ferimentos que recebestes, desde a cabeça até os pés, ao ponto de ficardes dilacerado e coberto pela púrpura do Vosso Sangue adorável. Ó quão grande e universal foi a dor que sofrestes em Vossa Carne virginal por nosso amor! Ó Dulcíssimo JESUS, que poderíeis fazer por nós que não o houvésseis feito? Eu vos suplico, ó meu Salvador, que vos digneis imprimir, com o Vosso Precioso Sangue, todas as Vossas chagas em meu coração, afim de que eu relembre, sem cessar, as Vossas Dores e o Vosso Amor. Que pela fiel lembrança da Vossa Paixão, o fruto dos Vossos Sofrimentos
seja renovado em mim, cada dia mais, até que eu me encontre, finalmente, Convosco,que sois o tesouro de todos os bens e a fonte de todas as alegrias. Ó Dulcíssimo  JESUS, concedei-me poder gozar de semelhante ventura na vida eterna. Assim seja!

DÉCIMA TERCEIRA ORAÇÃO
1 Pai Nosso...
1 Ave Maria...

Ó JESUS, fortíssimo Leão, Rei imortal e invencível, lembrai-Vos da dor que vos acabrunhou quando sentistes esgotadas todas as vossas forças, tanto do Coração como do Corpo e inclinastes a cabeça dizendo: ”Tudo está consumado!” Por esta angústia e por esta dor, eu Vos suplico, Senhor JESUS, que tenhais piedade de mim, quando soar a minha última hora e minha alma estiver amargurada e o meu espírito cheio de aflição.Assim seja!

DÉCIMA QUARTA ORAÇÃO
1 Pai Nosso...
1 Ave Maria...

Ó JESUS, Filho Único do PAI, esplendor e imagem da sua substância, lembrai-Vos da humilde recomendação que LHE dirigistes dizendo: ”Meu PAI, em Vossas Mãos entrego o Meu Espírito!” Depois expirastes, estando Vosso Corpo despedaçado, Vosso Coração transpassado e as entranhas da Vossa Misericórdia abertas para nos resgatar. Por esta preciosa morte eu Vos suplico, ó Rei dos Santos, que me deis força e me socorrais, para resistir ao demônio, a carne a ao sangue, afim de que, estando morto para o mundo, eu  possa viver somente para Vós. Na hora da morte, recebei, eu Vos peço, minha almaperegrina e exilada que retorna para Vós. Assim seja!

DÉCIMA QUINTA ORAÇÃO
1 Pai Nosso...
1 Ave Maria...

Ó JESUS, vide verdadeira e fecunda, lembrai-Vos da abundante efusão de Sangue, que tão generosamente derramastes de Vosso Sagrado Corpo, assim como a uva é triturada no lagar. Do Vosso lado aberto pela lança de um dos soldados, jorraram Sangue e água,de tal modo que não retivestes uma gota sequer. E, enfim, como um ramalhete de mirra elevado na Cruz, Vossa Carne delicada se aniquilou, feneceu o humor de Vossas entranhas e secou a medula dos Vossos ossos. Por esta tão amarga Paixão e pela efusão de Vosso precioso Sangue, eu vos suplico, ó Bom JESUS, que recebais minha alma quando eu estiver na agonia. Assim seja!

ORAÇÃO FINAL

Ó doce JESUS, vulnerai o meu coração, afim de que lágrimas de arrependimento, de compunção e de amor, noite e dia me sirvam de alimento. Convertei-me inteiramente a Vós. Que o meu coração Vos sirva de perpétua habitação; Que a minha conduta vos seja agradável e que o fim da minha vida seja de tal modo edificante que eu possa ser admitido no Vosso Paraíso, onde, com os vossos Santos, hei de vos louvar para sempre. Assim seja!

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

O PECADO DE DAVI E O PERDÃO



(DO SITE DO PE. FERNANDO CARDOSO)


27 de janeiro de 2012 (1ª leitura da sexta-feira da 3ª semana comum: 2ª Samuel 11,1-17 e 12,1-25)


Hoje, a Bíblia nos apresenta uma página turva, fosca, da história de Davi.

Os telespectadores já estão percebendo que eu, normalmente, faço comentários à primeira leitura porque, normalmente, o Antigo Testamento é menos conhecido do que o Novo, mas é também Palavra de Deus que serva para nossa reflexão e alimento espiritual.

O texto nos fala de dois pecados gravíssimos cometidos por Davi: em primeiro lugar um adultério, assumindo como mulher própria, e tendo relacionamento sexual com a esposa legítima de um soldado seu hitita chamado Urias; o segundo pecado, pior ainda, mais grave, foi o homicídio de Urias para que a gravidez e o filho de Bersabéia ficasse escondido e não viesse à tona o adultério perpetrado por Davi. Naquela época não havia exames de DNA.

Dois pecados gravíssimos. E aqui Davi, lamentavelmente, manchou de maneira forte a sua existência. Davi, nesses dois pecados graves, é o retrato de muitos de nós que, embora armados de reta intenção, de castos desejos, de quando em quando resvalamos. E neste caso aqui não se tratou de pecados corriqueiros, os mais graves que se podem cometer: primeiro uma infidelidade conjugal, um adultério; em segundo lugar, e pior, um assassinato.

Infelizmente esta página vem manchar a biografia de Davi. E assim acontece também com as nossas biografias. Se não tomamos cuidado, se não vigiamos de acordo com o mandamento de Jesus, se não rezamos diariamente, se não nos examinamos, se não vivemos alerta, estas coisas acontecem conosco também. Quantos adultérios e quantos assassinatos não são perpetrados diariamente em todas as nossas cidades? Sim, estes dois pecados de Davi são pecados que se cometem diariamente, através dos quais Deus, na Sua santidade, é ofendido.

Bem, talvez um ou outro diga: “não cometi nenhum desses dois até o dia de hoje. Nunca adulterei e nunca assassinei quem quer que fosse”. Por graça de Deus. Mas é possível que outros pecados graves tenham manchado a nossa veste batismal que recebemos branca no batismo, e prometemos conduzi-la branca ao tribunal de Deus. Se isto aconteceu, não apenas imitamos Davi no seu pecado, mas nos tornamos indignos do reino de Deus.


O pecado é sempre uma desordem grave na vida, ofende a Deus, e traz conseqüências funestas para nossa vida (o padre Fernando acrescenta, no dia 28, que um dos castigos 
de Davi foi a morte do filho que Betsabéia concebeu nesse pecado de Davi.) 

30 de janeiro de 2012)

No segundo Livro de Samuel, são narradas tragédias e turbulências pelas quais passou a casa real de Davi. Foi Davi um pecador penitente que aceitou as consequências do mal praticado. Absalão, um de seus filhos, assassinou o irmão Amnon por ter violentado a irmã Tamar. Por sua vez, Absalão foi também assassinado por Joab, general de Davi. Adonias, outro filho de Davi, seria mais tarde assassinado por ordem de Salomão. E assim, a espada que Davi desembainhou em sua casa, matando o marido de Betsabéia – Urias, o hitita - não mais o abandonou. O resto da história de Davi é uma sucessão de lutas sangrentas entre os irmãos, a ver com quem ficaria o reino após a morte do pai.

Diante desse texto, não podemos deixar de trazer à lembrança tantas famílias desarticuladas, desunidas, onde algumas vezes impera ódio mortal entre irmãos ou parentes. Desunião familiar é verdadeira chaga, que pode começar entre marido e mulher, mas depois se propaga entre irmãos. Que tragédia, quando percebemos em família que irmãos não se falam, evitam-se, ofendem-se e nunca mais entrarão em acordo.

Rezemos pelas famílias que se encontram nessa situação. Além da oração, que é fundamental, ajuda vinda de fora, serviço habilidoso e tempo são capazes de curar feridas que, de outra maneira, apenas aumentariam.

Em primeiro lugar, se alguém possui ódio no coração, reconcilie-se primeiro com o irmão a quem ofendeu ou com quem está ofendido, porque sua relação com Deus pode estar dessa forma comprometida.

Nem sempre as coisas se passam de maneira tranquila. Há casos em que pessoas ofendidas não desejam conceder o perdão; nem tudo depende apenas de nós. Em situações como essas, faz-se o que se pode e se entrega a Deus a situação que não pôde ser amigavelmente resolvida.

Ao lado de grandes perdões, existem também perdões menores e quase diários, que devemos conceder ou pedir. Caso emblemático é o perdão entre marido e esposa. Se não se perdoam recíproca e frequentemente, um muro de separação se vai levantando entre ambos, a ponto de a convivência, mais tarde, tornar-se impossível. É possível, a esse propósito, perdoar o cônjuge infiel? Eis uma questão que não pode ser aqui resolvida. Trata-se de algo muitíssimo delicado, mas conheço pessoas que, na oração, encontraram força para perdoar a parte infiel. Naturalmente não se trata aqui de perdoar “setenta vezes sete”. Não esqueçamos que perdoar significa também saber pedir perdão. Não somos apenas credores de perdão; somos também devedores.

A VOCAÇÃO DE NATANAEL

Pe Alfredo Gonçalves, Carlista
Assessor das Pastorais Sociais

Natanael permanece uma figura um tanto quanto obscura nas páginas no Novo Testamento. No capítulo primeiro do Evangelho de João, além do mais, ele se revela meio desconfiado, descrente quanto à possibilidade de "sair coisa boa de Nazaré”. Assim mesmo, ele segue Felipe que o pretende apresentar a Jesus. Esta curiosidade aparente revela o contexto religioso e cultural do Povo de Israel em sua longa espera pelo Messias. É um povo que há séculos espera pelo salvador, que depositou sua esperança nos reis e foi por eles desenganado, traído. Transferiu então sua expectativa para um enviado de Deus, o qual, conforme as Escrituras, haveria de nascer da descendência de David e ser o verdadeiro Messias.
João Batista, último profeta da antiga aliança e primeiro da aliança nova, indica o Cordeiro de Deus que "haverá de tirar o pecado do mundo”. É o profeta da transição, na encruzilhada entre o passado e o futuro de Israel. Reuniu um punhado de discípulos, mas, após sua própria revelação, alguns deles deixam-no para seguir a Jesus. De fato, "era necessário que eu diminuísse para que ele crescesse”, pois, "eu sou apenas a voz que clama no deserto”. E mais, "não sou digno de desamarrar a correia de suas sandálias”. Natanael pode muito bem ser um dos discípulos do precursor que passa a seguir o novo Mestre: instigado pelos relatos dos companheiros, vai ao encontro desse ilustre desconhecido.
1.Jesus e Natanael
Retomando o Quarto Evangelho, vendo Natanael aproximar-se, Jesus comenta: "Eis aí um israelita verdadeiro, sem falsidade”. Qual não terá sido a reação do desconfiado Natanael! Nunca havia visto aquele estranho. Como podia falar desse modo? Não lhe havia autorizado semelhante intimidade. Por isso a pergunta intrigada e instigante: "De onde me conheces”? E a resposta de Jesus, igualmente surpreendente, chega a ser espantosa. Talvez não para nós hoje, que já estamos familiarizados com as frases taxativas do Evangelho, mas com certeza para o pobre Natanael: "Antes que Felipe te chamasse, eu te vi debaixo da figueira!”
Vale uma pausa para especular o sentido da figueira para Natanael. Não seria ela o lugar oculto onde ele se escondia de tudo e de todos, particularmente nos momentos duros e difíceis, nas tribulações mais pesadas da existência? Não seria o recanto obscuro onde se refugiava nas horas de raiva, de tristeza, de angústia ou de revolta? Quem sabe ali derramava suas lágrimas mais ardentes, curtia seus medos e dúvidas mais pungentes, arrancava os cabelos diante da impotência! Não será a figueira o lugar simbólico do retiro, onde, a sós com a própria turbulência, Natanael engolia em seco os soluços amargos de suas situações-limite? E é justamente ali que o Senhor afirma tê-lo visto! Tantas coisas e momentos de sua vida podiam e mereciam ser mencionadas com maior razão, mas aquele olhar, ao mesmo tempo estranho e penetrante, vai descobri-lo logo debaixo da figueira!
Também nós passamos por desertos estéreis, por noites escuras, por becos sem saída. São os momentos em que não queremos ver nada e ninguém. É quando o desespero bate à porta e gememos: até aqui eu caminhei só, agora me carrega, Senhor, porque não agüento mais! Por isso, queremos ficar a sós conosco mesmos, para não expor em praça pública a dor, o pranto ou a tormenta que inunda todo nosso ser. Ou seja, também nós temos nossa própria figueira, ou nossos momentos de figueira – refúgios para onde fugimos com uma tempestade no coração e na mente, à procura de alguma resposta. Quem já não passou por tais momentos de sofrimento sem remédio!
Numa palavra, a figueira é simbolicamente o lugar da nudez. Lugar em que Natanael se encontra consigo mesmo, com suas fraquezas e debilidades, com sua condição humana mais mesquinha e impotente. É a partir dessa experiência que Jesus o chama. Tendo passado pela figueira e tido a coragem de encarar-se a si mesmo, ele está preparado para identificar e compreender as dificuldades dos outros. A figueira alarga o leque de nossa compaixão para com as dores e situações difíceis dos outros. Ao revelar nossa debilidade, relava igualmente a debilidade de cada ser humano, junto com a necessidade de misericórdia para com as fraquezas alheias. Por isso Natanael está preparado para ser discípulo missionário. Tendo encontrado e si mesmo e ao Mestre, pode partir em busca dos que se sentem órfãos e sós, abandonados e perdidos.
Conhecendo-se a si próprio, possui elementos para conhecer os demais. Vendo-se no espelho da figueira, aprende a enxergar de maneira distinta as quedas de cada ser humano. Afinal, a exemplo do vaso, é na queda que o homem revela sua resistência. A figueira como espelho do autoconhecimento e da própria nudez é também uma janela aberta para conhecer a trajetória e a nudez das daqueles que nos cercam. Natanael aprendeu a desconfiar de si mesmo e de suas próprias forças, de sua auto-suficiência, arrogância e prepotência. Por outro lado, aprendeu a confiar naqueles que, de alguma forma, o ajudaram a sair da figueira. E mais ainda, a confiar no Deus oculto que, com fios invisíveis, vai tecendo o pano de fundo onde se fortalece o futuro apóstolo. Em síntese, a figueira desnuda, mas também nutre e enriquece o germe da vocação. Torna-a sempre mais adulta.
2.Trajetória vocacional
Um olhar retrospectivo à própria vocação pode nos ajudar a identificar os momentos de figueira e a forma como dele saímos. Podemos identificar também quem esteve ao nosso lado e nos ajudou a retomar a estrada. Entende-se vocação não como um ato isolado da vida, mas como uma atitude que nos acompanha ao longo de toda a existência; não como um evento fugas e mágico, e sim um processo de aprendizado e amadurecimento. Vocação é dom, mas é também busca; é chamado, mas é também resposta; é intuição, mas é também construção lenta e laboriosa.
Aqui não há magia, nem uma voz estranha que chama no meio na noite: "Samuel, Samuel!”. Isso é poesia, uma forma literária de descrever a vocação. Esta nasce em meio a circunstâncias bem precisas, sejam elas pessoais e familiares ou socioculturais e históricas. Às vezes tem até mesmo um início prosaico, folclórico, como o caso do padre que entrou no seminário porque odiava as formigas na roça da família, ou daquela irmã atraída mais pela forma e cor do hábito do que pelo serviço sacerdotal ou o carisma da Congregação; e ainda, daquele padre que entrou no seminário porque alguma enfermidade o tornou inadequado para o trabalho pesado na terra. São muitas e muito variadas as histórias semelhantes. Deus recorre a meios bem circunstanciais para impulsionar uma pessoa ao entusiasmo por sua obra.
O dom, o chamado e a intuição, posteriormente, vão amadurecendo mediante incertezas e interrogações constantes. Aliás, a fé nasce e cresce no terreno árido, escuro e inóspito da dúvida. É então que começam a ocorrer os momentos de figueira na trajetória de nossa vocação. Crises que semeiam receios e interrogações. Perguntas se levantam com a força de águas represadas, faz-se noite escura, desconfiamos de nós mesmos e do caminho iniciado, recorremos ao isolamento, não queremos encontrar ninguém. Implícita ou explicitamente, o silêncio e a reflexão tomam conta de nosso interior. É hora do encontro consigo mesmo, do espelho, da coragem de enfrentar-se. O embrião vocacionado, frágil e delicado, vê-se batido pelo sol, pela chuva e pelo vento de todas as formas de intempéries.
Tais momentos críticos podem fazer-nos recair no berço. Como toda crise, a da figueira também é ambígua: pode prostrar-nos num saudosismo estéril e ineficaz, mas, por outro lado, pode conduzir-nos aos novos desafios da fronteira. Todos, por mais crescidos que sejamos, nutrimos uma saudade inconsciente pelo colo da mãe, pelo paraíso perdido. Mas essa mesma saudade, quando amadurecida pela experiência, pode projetar-nos para diante, na conquista da terra prometida. Melhor dizendo, em geral a crise, num primeiro momento, leva-nos ao berço, deixando aí os fracos; num segundo momento, porém lança os fortes à encruzilhada. Esta simboliza o lado positivo da crise. É quando a fuga se converte em nova busca, pois encruzilhada pressupõe bifurcação de caminhos e a necessidade de fazer escolhas. E toda escolha implica uma renúncia. Neste caso, a crise é dolorosa, sim, mas extremamente fecunda. No GrandeSertão de nosso destino desconhecido, Deus irrompe e nos chama a abrir novas Veredas, diria o grande escritor Guimarães Rosa.
Em seu momento negativo, porém, a crise contém revolta, choro, incompreensão e medo. É o caso de Elias que, cansado de tudo, deita e dorme um sono profundo para escapar da própria missão; ou então Jeremias que, diante de tantas adversidades, maldiz o dia em que veio à luz; e ainda Jonas, o qual, ao ser chamado a profetizar em Nínive, foge de Deus e de todos, até ser engolido por um grande peixe, o que na linguagem simbólica quer dizer regressar ao ventre materno. Em meio à tormenta da dúvida e da incerteza, impera a tentação de anular-se. O melhor mesmo seria nem ter nascido! São momentos cruciais que nos levam à beira de um precipício. Mas é justamente aí, onde a indigência é mais severa e aguda, que se torna mais significativa a presença de Deus. Presença ausente, jamais indiferente. "Onde abundou o pecado, maior se manifestou a graça”, diz o apóstolo Paulo (Rm 5,12).
Em outras palavras, no fundo do poço e da desesperança, Deus se revela e deixa, no caminho de nossa história, suas pegadas misteriosas. Envia um de seus anjos: ao profeta Elias, o anjo oferece pão e água, porque "o caminho é longo”; ao lamento de Jeremias, dá-lhe forças para seguir profetizando mesmo contra os que o perseguem; quanto a Jonas, lhe reconduz a Nínive para exercer sua tarefa negada e interrompida. E a Natanael, o olhar retrospectivo de Jesus lhe confere a certeza de ter achado quem procurava e coragem para seguir adiante. Um toque de Deus, um anjo estranho e peregrino, sobrevoa a nuvem sombria da crise, e aponta novos horizontes. Tal como a estrela de Belém, o anjo indica o caminho para o seguimento de Jesus Cristo, e para a divulgação de sua Boa Nova. Conclui-se que o fundo do poço, se não significar o fim, será necessariamente o começo de uma nova subida.
O mesmo ocorre com nossa própria vocação. Estamos todos em idade suficiente para termos vivenciado algum tipo de crise. Não pequenas pedras no meio do caminho, mas um abismo que nos tira o chão debaixo dos pés. Parafraseando Simone de Beauvoir, é como se as estrelas se tivessem apagado no céu e os marcos desaparecido da estrada. Sabemos o que significa o momento difícil da figueira. Bastará, entretanto, um resgate da trajetória vocacional de cada um, para dar-se conta que algum anjo de Deus apareceu, e nos ajudou a sair da encruzilhada para seguir adiante. Esse anjo pode ser um familiar, um amigo, um superior, uma situação extrema de pobreza, um momento pessoal de fracasso, até mesmo um desconhecido... Trata-se, enfim, de um alerta à lei da inércia, que nos acomoda num torpor inativo. Um alerta provocado, normalmente, pelas pessoas e circunstâncias mais variadas e inesperadas. E que nos sacode, enxuga as lágrimas, levanta-nos o ânimo e nos põe novamente em marcha.
3.Beber do próprio poço
Tomar nas mãos a história da própria vocação é dar-se conta que ela foi visitada muitas vezes pela mão invisível de Deus. Mão invisível que se faz visível através de uma palavra ou de um olhar de encorajamento, de uma visita ou um toque de algum companheiro, de uma realidade gritante e clamorosa. Refaz-se, assim, o chamado e este requer uma nova resposta. O dom de Deus se mantém sempre presente, mas exige busca renovada, dados os desafios que a realidade nos apresenta a cada momento. A intuição primordial reluz como uma estrela em meio às trevas, mas deverá ser complementada por um trabalho contínuo. A vocação, tal como a semente lançada à terra, necessita de um cultivo permanente. Como bem sabemos, trigo e cizânia nem sempre andam separados. O mais comum é crescerem juntos. "Tudo é muito misturado”, constata Riobaldo Tartarana, personagem de Grande Sertão, Veredas.
É desse modo que o processo vocacional, em nossa vida, dura noventa e nove anos... Ou seja, toda uma existência, praticamente desde o berço até túmulo! Se nossa trajetória vocacional foi sempre visitada por Deus, de modo particular nas horas de maior dúvida e angústia, trata-se agora de revisitá-la. Não de forma negativista como ocorre na maioria das vezes, mas positivamente. Somente desse modo nos damos conta das numerosas ocasiões em que a presença de Deus marcou nosso avanço, penoso e aos tropeços, sem dúvida, mas progressivo. No confronto com o episódio de Natanael, percebemos que, se o olhar de Jesus nos momentos de figueira esteve comigo até hoje, não será a partir de agora que irá me abandonar. Engendra-se e cresce, assim, uma confiança nova e inabalável, não em minhas forças ou méritos, mas na graça de um Deus infinitamente misericordioso.
Quando somos capazes de identificar os anjos que nos fizeram redescobrir a vocação e notamos que o Senhor se manifestou em nossa vida através deles, então a história vocacional ganha enorme relevância. Torna-se uma fonte de água viva para os próximos passos e embates da vida. Passamos a "beber do próprio poço”, para utilizar a expressão de Gustavo Gutierrez. Como o exemplo da árvore do sertão e do agreste: quando a seca aperta, ela se alimenta dos nutrientes acumulados na própria raiz. Também aqui, como no caso de Natanael, as visitas à figueira nutrem, vivificam e fortalecem a própria vocação. Desnudam e escancaram nossa fraqueza, fragilidade e impotência, mas, ao mesmo tempo, revelam a mão de Deus agindo através destes "vasos de barro”, como diz o apóstolo Paulo (2 Cor 4,1-6).
A simbologia da figueira, que aparecia como um deserto árido, estéril e inóspito, se descortina como um terreno fecundo e fértil. A luz brilha mais forte onde a noite se faz mais escura, a flor é mais bela quando mergulha as raízes no esterco. Também a exemplo de Natanael, abre-se o leque de nossa compreensão frente às crises alheias. Ao espelhar minha condição de pobreza, a figueira espelha simultaneamente a condição real de todo ser humano. E nos predispõe para a compaixão e a misericórdia. Vale dizer, nos predispõe para um seguimento cada vez mais adulto dos caminhos do Mestre. Amadurece nossa vocação de discípulos missionários a serviço da vida.